Arquivo de Autor de Luiz Nazario

20
Jun
10

MEMÓRIA GRÁFICA – TYPOGRAFIA ESCOLA DE GRAVURA

Por Elza Maria Santos

A Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura – Centro de Internação da Criança e do Adolescente é uma associação sem fins lucrativos, constituída em 1999 por 25 artistas e gravadores mineiros que ao saberem da desativação da extinta Fundação para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) se mobilizou para resgatar a cidadania de adolescentes vulneráveis recuperando, ao mesmo tempo, as tipografias abandonadas daquela instituição. Sediada à Rua Conselheiro Rocha, 3.800, no Bairro Horto, em Belo Horizonte (MG) ela oferece oficina de artes visuais e gráficas para adolescentes, inclusive alguns privados de liberdade. A idéia partiu do artista gráfico Oswaldo Medeiros, já falecido. A antiga FEBEM possuía máquinas e equipamentos que pertenciam ao Estado, mas os artistas conseguiram autorização de uso.

A administração da Associação era originalmente composta pelo Presidente, Oswaldo Medeiros; Vice-Presidente, Paulo Henrique Pereira Giordano; Secretária, Regina Célia de Vasconcelos; e Tesoureira, Maria Dulce Peixoto Barbosa. A Associação procurou o Conselho Estadual de Direito da Criança e do Adolescente (CEDCA) e conseguiu restaurar os equipamentos e passaram a atender adolescentes entre 14 e 21 anos em situação de risco social e pessoal e em conflito com a lei.

A missão de Memória Gráfica é transformar através da arte. Seu foco principal é a arte-educação, dando prioridade à educação continuada das crianças e dos adolescentes. A entidade começou recebendo cerca de 40 jovens, divididos em três turmas, que freqüentam a associação de segunda a sexta-feira. Eles são beneficiados com uma bolsa de R$80,00, concedida pelo Instituto Credicard e podem participar de todos os eventos da entidade. Atualmente, o projeto atende cerca de 120 adolescentes, entre 15 a 21 anos, a maioria de jovens recolhidos ao Centro de Internação Provisória (CEIP) e ao Centro de Internação do Adolescente (CIA). O projeto atende crianças e adolescentes encaminhados por diversas instituições sociais de Belo Horizonte.

Os profissionais que realizam trabalhos voluntários na associação são assistentes sociais, psicólogos, dentistas, oftalmologistas e ONGs ligadas à saúde; artistas plásticos, encadernadores, artistas gráficos, programadores visuais, escritores. As atividades ensinadas às crianças e adolescentes são de formação artística e gráfica, comunicação e expressão, gravura, computação e editoração, impressão gráfica, encadernação e papelaria. Para que estas crianças e adolescentes se capacitem são oferecidos cursos, treinamentos, seminários e similares em áreas pertinentes por profissionais de formação de pessoal especializado para atividades pedagógicas e de criação em artes, sobretudo para a educação da comunidade em situação de risco social e pessoal. As crianças, adolescentes e familiares têm orientação sobre direitos civis e sociais visando a geração de renda ou emprego.

Segundo Maria Dulce Peixoto Barbosa, o treinamento de jovens por meio de técnicas tipográficas sempre traz bons resultados e ganhos quando voltado para a formação de artistas e artesãos. “O resgate da gráfica artesanal produzindo edições de qualidade, além de gerar renda para os adolescentes e seus familiares, proporciona para nossa cidade o reconhecimento de pioneiros no desenvolvimento de aptidões artísticas dos adolescentes”, afirma. Projetos realizados pela Memória Gráfica:

Typographia Escola de Gravura – Oficinas de Formação Artística e Gráfica. Este projeto engloba oficinas de gravura, impressão gráfica, encadernação e papelaria. Os alunos aprendem também as técnicas de gravura em preto e branco, de recorte, colorida, por eliminação, pouchior e monotipia. As gravuras desenvolvidas são do tipo xilogravura, linóleo gravura e isogravura. Já a oficina de impressão gráfica trabalha as formas de impressão por meio da união da tipografia, do offset e das técnicas de hot-stamping. Impressos como livros, jornais e semanários são confeccionados nessa oficina. Técnicas de encadernação com costura manual, por caderno e simples, espiral, peças gráficas coladas, grampeadas e picotadas, douração e marmorização também são ensinadas e na oficina de papelaria os jovens produzem cartões, pastas, papéis de carta, envelopes e similares. O projeto é patrocinado pela Usiminas, por intermédio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.  Outra ação, denominada “De Gutenberg a Bill Gates” complementa o processo de formação dos jovens, por meio da oficina de informática e editoração eletrônica, já que visa à inclusão digital dos mesmos. As aulas oferecem aos participantes a oportunidade de trabalhar com planejamento gráfico e de criar imagens digitais passando para a diagramação e a editoração de livros. Esse projeto foi premiado nos concursos nacionais “Cidadão 21 – Arte”, promovido pelo Instituto Ayrton Senna e Embratel, em 2002 e “Transformando com arte”, realizado pelo BNDES no ano passado. As conquistas tornaram A Memória Gráfica parceiro dessas instituições, o que viabilizou a continuidade do projeto. Memória Gráfica também disponibiliza para comercialização os produtos das oficinas, tais como: cartões de natal, cartões comemorativos, livros e pastas, gravuras, cordéis, agendas, blocos e cadernetas, jornais, panfletos, cartões de visita, camafeu, cartonagem, dentre outros.

Projeto Gravura na Praça: Oficina Itinerante de gravura e desenho é realizada em praças públicas de municípios mineiros como parte do Circuito Telemig de Celular de Cultura, também promovido por meio da lei de incentivo a cultura do estado. De acordo com os organizadores, com este projeto, os adolescentes atendidos pela Formação Artística têm grande oportunidade de colocar seu apren­dizado em prática já que passam à condição de monitores, integrando a equipe que oferecerá a oficina à população da cidade visitada.

Projeto Edição de Obras Primorosas: com o apoio da Usiminas, a Memória Gráfica editou quatro livros de caráter artístico e cultural. Segredos, uma antologia de poemas escritos por Luiz Nazario; Roteiro estético das minas enganosas, com textos e críticas sobre a obra de diversos artistas mineiros escritos ao longo de 30 anos pelo por Moacyr Laterza; Mãe África, ensaio de Fidêncio Maciel de Freitas sobre os costumes africanos buscando congruências e semelhanças com as culturas brasileira, americana e européia; e Organizações poéticas, com textos e poemas épicos de Leda Souza Dutra.

Projeto Cordel de Rua: edição de literaturas de cordel a partir de histórias contadas pelos adolescentes atendidos nas oficinas de “For­mação artística e gráfica”. A ação é patrocinada pelo IMS (Instituto Marista de Solidariedade).

Projeto Clube da Gravura: por meio deste projeto, cada participante recebe duas imagens de gravuras a cada três meses, sendo uma produzida por um artista renomado e a outra por um dos jovens gravadores.

Todo o material gráfico é produzido através de um processo artesanal, a partir de recursos tipográficos, como clichês, tipos móveis e xilogravura. A encadernação é manual e os impressos são produzidos em máquinas offset, com aplicação de hot-stamping. O conteúdo desse material busca recuperar a história das artes gráficas e o acabamento também é feito pelos adolescentes atendidos pelo projeto.

Os produtos do trabalho dos jovens são vendidos ou apresentados nos eventos de que Memória Gráfica participa. “A verba arrecadada é revertida para a associação, mas nosso principal objetivo com a exposição não é a venda e sim o estímulo à arte”, acrescenta Maria Dulce. Entre os produtos estão livros, álbuns de gravura, literaturas de cordel, cartões postais e de Natal ilustrados e outros.

Nesse sentido, a entidade participou, em 2002 e 2003, de uma exposição interativa, em comemoração ao centenário de Carlos Drummond de Andrade. No evento, foram apresentados os materiais tipográficos e os trabalhos produzidos na oficina de gravura. Além disso, esteve presente em duas edições da Festa Gentileza, promovida pela Telemig, onde ofereceu aos presentes a oficina de gravura. Outras exposições foram realizadas: Memória Gráfica (2003) por Marcelo Terça-Nada!; e Memória Gráfica – typographia escola de gravura, na Biblioteca Luis de Bessa (2006), que mostrou trabalhos em gravura, cartões e papelaria, todos criados por crianças e adolescentes de baixa renda. A exposição caracterizou-se principalmente pelo cuidado artesanal na confecção do material gráfico: literatura de cordel, livros, álbuns de gravura, cartões postais e de Natal com ilustrações originais. Tudo feito a partir de recursos tipográficos, como clichês, tipos móveis e xilogravura, além de encadernação manual, impressão em hot-stamp e off-set, sempre recuperando a história das artes gráficas e em especial a do impresso. Todo o acabamento e a confecção foram realizados pelas crianças e adolescentes que compõem a mostra.

Em entrevista com Maria Dulce Peixoto Barbosa fomos informados de que o maior parceiro da Associação Memória Gráfica é a Fundação Ayrton Sena. Mas colaboram também a USIMINAS – Usina Siderúrgica de Minas Gerais; o Centro Cultural da UFMG; o Instituto CREDICARD; e a AMAS – Associação Municipal de Assistência social, que busca pessoas de outras regionais para trabalharem juntos. A prestação de contas aos parceiros da Associação é feita trimestralmente. Para que isto possa acontecer com garantia e de forma correta, as anotações são feitas diariamente num livro caixa, tudo com profissionalismo, seriedade e compromisso.

Dulce informou que na associação as pessoas trabalham em dois turnos. São feitas visitas em algumas cidades de Minas Gerais, como Ouro Preto, Mariana, São João Del Rei e Tiradentes, para que as crianças e adolescentes conheçam os pontos turísticos e possam fazer seus esboços para futuros desenhos. Quando retornam à associação elas realizam seus trabalhos. São feitos também encontros estaduais e regionais anuais das ONGs para divulgação dos trabalhos, como um Encontro das ONGs em Araxá, onde a discussão foi a alfabetização das crianças e adolescentes. Hospedagem e alimentação são por conta dos parceiros da associação. Algumas padarias de Belo Horizonte, como a Boníssima, doam sobras de pães, bolos, biscoitos e alimentos de boa qualidade para a Associação, que são reaproveitados nas alimentações das crianças e adolescentes. Sua maior felicidade é quando jovens que são recuperados pela associação conseguem se reintegrar à sociedade, como no caso de “Fernando”, que hoje trabalha com tipografia, já tem sua casa e sua moto, fazendo ainda serviços de entrega. Fernando é tão grato à associação que todos os dias antes de ir apara sua residência após o trabalho passa na associação, cumprimenta todos e ajuda a Associação nos seus dias livres como voluntário. É a Memória Gráfica mineira utilizando as artes gráficas como forma de conquista da cidadania, preparando profissionais capacitados e bem treinados para o mercado de trabalho.

Referências Bibliográficas

AMAS, http://www.amas.org.br/, acessado em 31/08/2008.

EXPOSIÇÃO MEMÓRIA GRÁFICA, <http://virgulaimagem.redezero.org/exposicao-do-memoria-grafica>, <http:// www.cultura.mg.gov.br>, acessado 31/08/2008. INSTITUTO INSTITUTO AYRTON SENA, http://senna.globo.com/institutoayrtonsenna/br/default.asp, acessado em 31/08/2008.

MEMÓRIA GRÁFICA, <http://www.ajudabrasil.com.br/>, acessado em 27/08/2008.

MEMÓRIA GRÁFICA, <http://www.professionalpublish.com.br/docs/74-memoria-grafica.pdf>, acessado em 31/08/2008.

© Elza Maria Santos, 2008.

18
Jun
10

SEGREDOS

A formiga de cristal. Foto: Hugo Rondas

 

 

Segredos (2000) foi publicado em edição limitada a 500 exemplares, com ilustrações do artista plástico Oswaldo Medeiros – de saudosa memória -, em páginas impressas uma a uma com fontes tipográficas e encadernação artesanal. Cada exemplar é uma edição única, obra de adolescentes em situação de risco, que aprenderam a arte da gravura e da tipografia graças ao projeto Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura, que tem a missão de recuperarar a memória gráfica mineira ajudando menores vulnerabilizados a encontrar, através da arte, novo sentido para suas vidas.

  

  

MANIFESTO DOS COGUMELOS GIGANTES

  

No princípio, tudo era caos e trevas.

Com a vida encerrada em castelos,

os homens só travavam santas guerras,

enquanto as mulheres discutiam

quantos anjos de fato poderiam

dançar na cabeça d’um alfinete.

 

Contudo, esse estado de coisas

não havia de durar eternamente.

Dinamitamos as orientais represas

que armazenavam o ouro dos árabes.

A luz se derramou sobre as cidades

e sobre o ouro assentamos nossa liberdade.

 

Edificamos palácios e lojas,

navegamos em círculos até o Camboja.

Descobrimos novos mundos,

catequizando povos imundos.

Enriquecemos mais e mais

fundando impérios coloniais.

 

As moedas multiplicadas,

em novas empresas lançadas,

criavam as riquezas mágicas

de nossas indústrias básicas.

À nossa glória ao mundo legamos

as mais belas criações do gênio humano:

 

testemunhos do poder e do requinte

de nossa fantasia sem limites.

Despedaçamos sem piedade

os nós que atavam a sociedade.

E dobramos com esperteza

a mais que flexível natureza.

   

Transformamos médicos, juristas,

cientistas, literatos e artistas

em dóceis servidores assalariados.

E como nada estava escrito no céu,

rasgamos o terno véu

do sentimentalismo familiar.

   

Crescemos até as nuvens,

levando nossa civilização

até os mais altos cumes.

E, para calar os queixumes,

cravamos bem fundo

um capital em cada coração.

 

Por fim, os joelhos do mundo

dobraram aos nossos pés.

Ninguém conheceu tanto poder desde Ramsés.

Mas foi então que nosso brilho

começou a se apagar:

nada mais tínhamos a dar!

 

E se para seguir vivendo

tínhamos de continuar crescendo,

essa situação contrafeita,

em que a História nos metia,

logo tornou suspeita

nossa fome de mais-valia.

 

As revoltas pipocaram

na face lisa das nações.

Pressentimos a morte de novo,

bicando forte nosso ovo,

para espalhar toda a gema,

e a clara do sistema, talvez…

 

Mas, não, nada tema: um, dois, três,

com Smith não há problema!

Para desterrar a esperança

plantamos cogumelos gigantes,

satisfazendo os consumidores

nesse antro já sonhado por Dante.

 

Ah, nem todos os perfumes da Avon

poderiam limpar as nossas mãos…   

E ainda que conclamassem:

“Cadáveres de todo o mundo, uni-vos!”

nenhum morto-vivo tomaria parte

nessa desvalida luta de classes.

 

Nossos cogumelos intoxicaram

os velhos sujeitos da revolução!

A roda infernal foi quebrada…

E que a humanidade, tão afoita,

fique para sempre aleijada, a se arrastar

pelos cantos, sem a bela redenção!

 

 

OS PÁSSAROS

 

Pelos fios de eletricidade,

namoramos pelas cidades,

pássaros raros,

sem árvores para o pouso.

E voamos, percorrendo o mundo,

falando todas as línguas,

agitando nossas plumagens,

Últimos representantes

de uma espécie em extinção.

Só namoramos,

sem poder procriar,

porque as árvores

em que fazíamos nossos ninhos

não existem mais

em nenhuma parte.

Só nos restaram

os fios de eletricidade

para nos encontrarmos

e cantarmos

nosso último canto de amor.

 

 

O FIM DA HUMANIDADE

 

Quando olhaste de relance para mim,

entornando um copo de bebida ruim,

e me disseste calmamente

que estavas morta há alguns dias,

confesso não ter dado a atenção devida.

Pensei que estavas só cansada,

depois de outra jornada de trabalho.

Só mais tarde foi que descobri

teu ser a decompor-se no festival dos vermes.

E mesmo sóbria assistias, inerme,

ao teu próprio banquete.

Incrível!

Não pude mais ficar contigo.

Desculpe, querida,

já enterrei muitas mulheres em minha vida.

Tu és apenas outro corpo

que espera o fim dos dias.

Jogarei teus restos no oceano

para que os peixes devorem

tua carne jovem e teus lindos sonhos.

 

 

A FLOR SEM PÉTALAS

 

Ao perder suas pétalas,

a flor permanece flor,

em seu cálice,

em seu perfume,

incompleta e desfeita,

imperfeita e sem cor,

horrivelmente bela,

horrivelmente flor,

eternamente saudosa

do que foi.

 

 

OLHOS FALSOS

 

Teus lindos olhos verdes

traíram-me de fato!

Mas quem diria fossem eles

duas lentes coloridas de contato?

 

 

A QUEDA

 

Nem sei mais desde quando…

Desde sempre?

Nem sei bem por quê…

E já soube?

Fui caindo, caindo,

como do céu um meteorito,

chorando a vida brilhante

que levava perto do sol.

Hoje, aqui, no chão frio,

entre caixas e vidros vazios,

coberto de trapos e feridas,

deposito toda esperança

numa nova lata de lixo.

 

 

UM HERÓI

 

Na luta contra o crime

um policial foi baleado em ação,

morrendo três dias depois,

no leito de um hospital.

Seu retrato foi pendurado

na sala de espera

de uma das repartições

de uma das dependências

de uma das seções

de um dos setores

do Departamento.

Seu nome até hoje é lembrado

por três velhos parentes

e seu fiel companheiro,

que nunca se conformou.

 

 

DOCUMENTO ESPECIAL: AS ÚLTIMAS PALAVRAS DO HERÓI

 “Atenção, senhor terrorista! Afirmamos que sua única chance de salvarse é libertando os reféns o mais breve possível. Insistimos que é absolutamente necessário libertar os reféns para entrarmos em negociações. O edifício está cercado. Fugir é impossível, ainda que improvável. Cumpriremos ordens superiores. Atiraremos para matar. Não tente enfrentar nossas forças. Somos oitocentos milhões de policiais armados até os dentes, com metralhadoras, bombas, bazucas, tanques, catapultas, discos voadores, raios gama, água pesada, barulho infernal, Winchesters e desespero. Considere-se um homem morto. Cumpriremos nosso dever. Não tente maltratar os reféns. Não tente correr. Não tente cruzar as pernas. Não tente gritar. Não tente fugir com asas de cera. Não tente inclinar o corpo. Não tente respirar fundo. Não tente pular a cerca. Não tente ficar no escuro. Não tente morrer sozinho. Entregue-se, senhor terrorista!”

 

 

REFLEXÕES SOBRE A CRISE DO DESEJO

 A mais radical negação do ser não é o nada, porque o nada vem ao mundo pelo ser, como do nada vem o ser ao mundo. A negação mais radical do ser é a pedra, porque é eterna. Insensível, fria, opaca, inteira, confiante, objetiva e idêntica através dos séculos, a pedra resiste ao desejo com toda a força de seu peso. Haverá algo de mais estranho à vida quanto a estátua de pedra que assassina Don Juan? Contudo, um personagem de Samuel Beckett exclama que tem necessidade de barulho, de barulho seco e duro, do barulho das pedras que se chocam, pondo-se a bater, pedra contra pedra, com raiva e força crescentes, as pedras que segura nas mãos: “É isto a vida! Não esta… sucção!”.

É a consciência da sucção que nos leva ao desejo e à morte. Quando a História obriga o desejo à inflexão, ele se cristaliza numa natureza ambígua, a um tempo dura e translúcida, para conservar sua qualidade essencial enquanto se torna mais resistente que a carne, que não cessa de ser devorada. No diamante revela-se um valor superior da natureza: pequeno e incorruptível, é capaz de cortar lascas e lascas de vidro. Essa imortalidade, que só existe no coração dos homens enquanto recordam os que morreram pelo desejo, é o tesouro frágil que resiste aos Titãs, monolitos destinados a racharem-se nos entrechoques da História. 

O símbolo da afirmação do desejo não será, então, o omphalós, o umbigo do mundo, caído do céu em Astéria, ilha flutuante e estéril, único asilo que encontrou a mãe de Apolo, perseguida por Hera, onde pode finalmente dar à luz o deus da juventude imberbe, que nomeará sua terra devastada de Delos, a brilhante (…único refúgio para a maternidade?). E o símbolo da negação do desejo não será a pedra romana que fechava o mundus, buraco do Palatino pelo qual se chegava ao inferno, impedindo os homens de experimentar com seus próprios órgãos a existência real dos demônios (…exclusiva prerrogativa paterna?).

Os mitos podem ajudar a razão a sustentar a permanência de uma essência humana generosa, que a História destrói. Mas como sangrar de paixão num mundo desmistificado? Se admitirmos uma nova inflexão do desejo, ele não se ocultará apenas nos valores superiores da natureza, como também nos valores superiores da cultura, que vai ao socorro dos feridos de morte em sua humanidade: mães, crianças, velhos e amantes – silenciados e difamados pelos adultos, porque aprenderam na carne o seu segredo: o poder é impotente, e as pirâmides que constrói, inúteis e sem valor.

Se cada ser é um rio de sangue, e se cada rio tem seu próprio curso, cada homem tem seu próprio destino. Mas também os rios, se não se os canaliza e os deixa livres, correm naturalmente para o mar. Se querem os homens realizar sua essência humana, não deveriam romper os diques em direção à humanidade? E assim como o mar é suficiente para justificar a existência dos rios, a humanidade seria bastante para despetrificar o mundo, justificando a existência dos homens. O desejo é infinito. Desviado para objetos alheios aos seus fins originais, permanece infinito. Negado historicamente, materializa-se em tudo o que nega a humanidade nos homens. Por isso o desejo não se reprime nem se representa sem catástrofe: é a própria substância do ser, que permanece transparente sob as vestes, carente até a morte.

Desce outra noite no inferno de Eurídice. Enquanto o tempo devora o tempo e o ser desvela o ser, soa a música de Orfeu: movendo florestas e pedras, pacificando as feras do caminho, canta de novo o desejo…

 

 

A FLOR DE PLÁSTICO INCINERADA

 

Uma flor ao longe,

congelada em seu silêncio.

Não cresce em parte alguma,

não produz néctar nem brotos:

é reproduzida em série,

uma igual à outra,

aos milhões se for preciso.

Nenhuma seiva corre dentro dela.

A flor de plástico não pediu para nascer

e porisso jaz inerte

num tempo que não a afeta.

Inocente em sua violência,

ela não morre sozinha.

É preciso que a desfaçam

para que retorne

à humanidade que a criou

num instante de medo.

Quando o planeta desabitado

girar vazio no espaço,

a flor de plástico continuará

intacta e brilhante entre os escombros.

Mas, então, de que lhe servirá existir?

Não me inquieta na flor de plástico

a sua eternidade,

mas a cor imaginária

das coisas que não têm essência.

Liberta das estações,

a flor de plástico desafia a natureza

porque é uma afirmação do humano

que o nega radicalmente.

Porisso eu canto a flor de plástico,

e canto a sua destruição.

 

 

O CORPO SEM OSSOS

Tudo começou no azul e no vermelho. A fumaça entorpecia meus sentidos e fazia-me carne sem ossos, estrutura ausente de identificação: como se o mundo estivesse a ser invadido por máquinas de guerra. Todos contra todos: era a formação pretendida pelo gigantesco cérebro automático. A civilização atingia a fase extrema em que seus membros tornavam-se médiuns do poder invisível, confundido com a água do útero, o leite do peito e o alimento do corpo: regredíamos ao canibalismo, sublimado em diversão. Eu enfrentava, de mãos vazias, esse monstro só ossos que devorava a humanidade. Recoberto de carne, ele iludia suas vítimas com a aparência da vida, fascinando-as à primeira vista. É que se tratava de um falo, excitado e excitante, que só mais tarde revelar-se-ia destruidor.

 

 

Caninos de vampiro,

garras afiadas, 

o monstro projeta-se

sobre a humanidade.

Seu fim é devorar a carne

e devolver os ossos.

Seu nome é Nuclear.

 

 

Caem as últimas folhas.

Aranhas tecem suas teias.

Uma criança chora ao luar.

Um lobo espreita.

A mãe precisa trabalhar.

É uma das funcionárias

daquela usina nuclear.

 

 

pergunte o que fazer.

Se não sabe, está perdido.

Vampiro vampirizado

das pedras e dos ossos.

 

 

Artelhos, grupelhos.

caveiras, ossinhos,

esqueletos, discursos:

signos articulados.

 

 

Iludidas pelo poder,

 as massas morreram.

Das cinzas nasceram

os homens eternos.

 

 

Um vampiro bailava na cidade…

Mas algo o fez secar lentamente:

ele bebeu o sangue do diabo

que as crianças lhe deram.

 

 

Hoje acordei com mais sangue nas veias:

sonhei que a vida

era mais forte que a morte.

E senti a terra tremer.

 

 

Falharam as mágicas

do repertório sinistro.

Caem as cartolas e os ministros.

Nascem as estrelas e os profetas.

 

 

Todo homem pode ser um santo.

A santidade é a humanidade pura.

 

 

Arrependeu-se o criminoso

ao descobrir

que a lei gera o crime.

 

 

Renasce a esperança:

o Mal desintegra o Mal.

 

 

Os últimos dias da barbárie começaram

quando os animais igualaram-se a Deus.

 

♦ 

Da barbárie nascerá uma nova Grécia:

a filosofia descerá às ruas

para levar o homem ao paraíso.

 

 

A poesia jorra:

quebrou-se a pedra escondida.

 

 

Quebraram-me os ossos

até a felicidade: razão e carne.

 

 

Em meu corpo

não há lugar para o crime.

Está fechado aos vampiros,

aberto à luz.

 

 

Procura o sonho

quem não o vive.

 

 

Quando nos conhecemos

no pátio da universidade

lendo Simone de Beauvoir

e Jean-Paul Sartre,

ainda não sabíamos

que seríamos, um para o outro,

como Jean-Paul Sartre

e Simone de Beauvoir:

jurando amor eterno,

espalhando-o pelo mundo.

 

 

Sem artelhos, ossinhos,

caveiras, esqueletos,

grupelhos, discursos,

usinas, armamentos,

Apenas o léxico, o fluxo,

o nexo, o plexo e o sexo.

 

 

Nada de lutar para viver:

deixar que a vida escorra.

 

 

Seremos um corpo sem ossos,

dentes, unhas ou articulações:

puro molejo, pura delícia.

 

 

Quebrar os ossos do corpo,

quebrar os ossos do mundo,

quebrar os ossos da bomba,

quebrar os ossos da morte:

viver, viver, viver, viver.

 

 

Nada de partido, polícia, estado.

Apenas homens, frutos e poesia.

Nada de pátrias, sonhos e mitos:

apenas a vida sagrada.

 

 

No universo sagrado,

tudo é fluido e flui

num movimento único

de gozo e terror.

Entre o Ser e o Nada,

a vida se transforma

num anjo vingador.

As feras amansam

quando ele passa.

As mulheres põem-se

sob suas asas.

As crianças o acolhem

como um super-herói.

Mas os homens pensam:

“Tudo é relativo”,

e, quando o anjo volta as costas,

abraçam a morte.

 

 

Amortecer a catástrofe com amor:

o amor universal dos amantes,

o amor que sangra sobre nós,

o amor puro e verdadeiro,

o amor sem meios,

o amor difamado,

o amor liberto,

o amor amor.

E com o amor tecer o infinito Ser.

 

 

Bastam poucas aventuras

para colorir a Terra.

Com apenas dois homens

pode haver um diálogo.

Mas são precisos seis bilhões

para existir a humanidade.

 

 

Não nos querem radicais.

Mas sem raízes secamos.

Ser radical é ser humano:

colher os frutos das árvores

sem arrancar suas raízes;

colher os frutos dos homens

sem tolher suas liberdades.

 

Amigo: seja também meu inimigo,

para que possamos viver juntos

a existência inteira.

 

 

A máscara disfarça o medo.

 

  

Quiseram convencer-nos

de que éramos maus,

de uma natureza perversa.

Que nossos desejos mais puros

eram maquinações do inimigo.

Mas a liberdade revelou-se

tão infinita quanto o poder.

 

 

Não falo aos idiotizados pelos meios,

mas aos pacificados pelos fins.

 

 

Não quero o osso,

mas a carne.

Não quero a imagem,

mas a coisa.

Não quero a massa,

mas o ser.

Não quero os meios,

mas os fins.

 

 

O gesto mimético,

o verbo automático,

o revide reflexo,

o beijo em anexo:

tudo me agride.

Nada me ilude:

nem a cibernética,

nem a informática,

nem a telemática.

Sou apenas carne:

estética, ética, erótica.

 

O homem não nasce vazio,

para que metam dentro dele

valores estabelecidos.

O homem nasce completo

e apenas, com o tempo,

vai se descobrindo.

 

 

Toda minha vida passei a pão e água,

todos esses anos -

esmagado pelo desejo,

querendo que todas as carências

me invadissem

para que eu pudesse dar ao mundo

a palavra divina.

Eu era o refém da morte.

Mas, no último momento,

a morte fugiu de si própria:

era vida retorcida.

E se ela agora quer

sugar-me mais um pouco,

agora já não dou

mais meu sangue a ninguém.

Longa demais foi a opressão,

e desta vez tive tempo

de aprender seus mecanismos.

Se estamos às vésperas

do cataclismo,

do choque,

do perigo extremo,

sob a custódia

de potências infernais,

iguais em tudo,

o limite, o limite chegou.

Chegamos ao fim da porcaria.

A cultura revelou-se carne,

apenas carne.

Sim, não há ossos em meu corpo.

Verifiquei ontem à noite,

e não encontrei nenhum.

Desossado eis-me entregue

ao infinito

de outro infinito

tão desossado quanto eu.

 

 

Caem nossas últimas lágrimas.

Últimas porque as queremos últimas.

Talvez nos arrebente uma bomba atômica.

Talvez um punhal penetre nossa carne virgem.

Ainda assim revela-se a natureza

em sua perfeita ambigüidade.

 

 

Ser o que se desejar ser.

Viver a vida sem meios.

 

 

Sem relação:

a vida no estado puro.

Contra a morte da relação

no estado puro.

 

 

E quando tudo acabar,

iremos abrir nossas almas

para que nossos corpos

possam amar sem remorsos.

Transformaremos nossas vidas

em obras de arte e de amor.

 

 

É sagrado o seio

que a mãe dá ao filho.

É sagrado o pranto

de quem vê e não fala.

 

 

Nosso corpo será intocável:

foi só o que restou da vida,

e a vida é sagrada.

 

 

Construiremos o corpo sem ossos

sobre as ruínas desta terra devastada.

 

 

A ORQUESTRA MINÚSCULA

  

Num cantinho encantado do mundo

existe uma orquestra minúscula.

Cada um de seus instrumentos

não é maior que um dedal.

Os músicos dessa orquestra

são homúnculos muito tímidos,

que passam uma eternidade

afinando seus instrumentos.

A orquestra minúscula

é uma sensação, um prodígio,

mas raramente se apresenta.

E não se pode contratá-la:

ela não tem empresários,

nem se exibe em teatros.

A orquestra minúscula

só irrompe em momentos mágicos.

Ela toca para os que agonizam,

depois de uma vida plena;

para os amantes que se encontram, 

depois de uma busca infinita;

para as crianças perdidas,

e os gênios desesperados.

A orquestra minúscula

toca para poucos.

Sua música maravilhosa é abafada

pelo burburinho do mundo,

mas os que a ouvem são transportados

para uma outra realidade.

Eu ouvi a orquestra minúscula.

Estava tão triste, tão triste…

Foi quando escutei a melodia.

Tomei depressa de uma lupa

e vi os músicos pequeninos

em seus fraques brancos

afinando seus instrumentos,

esperando, nervosos,

que eu parasse de chorar,

e fizesse silêncio absoluto.

Enfim, o milimétrico maestro

dançou no ar com a batuta.

Que beleza, que encanto,

todos vestidos de gala,

tocando-me suas partituras

tão únicas, tão ensaiadas.

Os instrumentos miniaturas

reluziam como pequenas jóias.

Sons delicados e suaves

inundaram-me de alegrias,

elevando-me para além de toda dor

e de toda expectativa.

A musiquinha tornou-me mais puro,

como todos aqueles que sonham.

Desde então, vivo a esperar

por uma nova audição.

A orquestra minúscula gosta de tocar

para os que são absolutamente sós.

E que grande prazer ouvi-la,

depois de suportar o insuportável.

 

 

O TEMPO E A MORTE

  

Diz o Tempo à sua irmã:

“Sou poderoso, maninha:

carrego nos meus ombros

toda a História do mundo!”

Responde-lhe a fria Morte:

“Enquanto isso despedaço

todos os sonhos dos homens.

Eu é que sou mais forte!”

 

 

O EUNUCO

 

Meu desejo

é um rio seco

que não pára

de correr.

 

 

VAZIO

 

Nas minhas noites brancas

ou nos meus dias brilhantes

é tua ausência quem rouba

o sentido de cada instante.

 

 

A LINHA RETA

 

Do primeiro erro trágico

todos os outros nasceram,

numa progressão contínua,

rapidamente acumulada,

de catástrofes sucessivas,

só encerradas no inevitável

e mais amargo sucedâneo

de tamanha inconseqüência.

 

 ♦

 

PARAÍSO EM CHAMAS

 

Há um paraíso perdido

nas almas mais mesquinhas,

uma pequena chama de amor

nos corpos mais viciosos,

um brilho frágil que sustenta

toda a miséria do mundo.

 

 ♦

 

MISTÉRIOS

 

Foi por fim vencida

a Invencível Armada Espanhola

Já na sua primeira viagem

o inafundável Titanic afundou.

Mas, quando lançado no ar,

um gato sempre cai de pé.

 

 

ENTRETENIMENTO

 

Que desperdício fixar,

derrubando florestas,

tantos sorrisos e gestos

de estúpidas carcaças!

 

 

WEIMAR, 1991

 

Eu vi a morte em Buchenwald,

em pedras negras como cicatrizes,

e na árvore decepada de Goethe,

sem tronco, galhos ou raízes.

 

 

AS RUAS DE ROMA

 

Não há uma única rua de Roma

que não me desperte a lembrança

de tê-la um dia percorrido. Pois certa tarde,

enquanto eu caminhava pela Via dei Greci,

minha alma saiu de meu corpo

e sobrevoou todo o Corso,

da Via del Gambero à Piazza del Poppolo,

abraçando todas as paralelas e transversais.

Se a nenhum homem é dado

conhecer Roma por completo

minha alma, pondo-se a vagar

naquele labirinto de pedras,

retornou ao meu corpo tão feliz

como nenhum homem jamais o foi ou será

por não poder, na sua breve existência,

ter Roma inteira em seus braços.

 

 

AS IDADES DE ROMA

 

Roma acolhe, maternal, toda a confusão do mundo:

templos pagãos transformados em igrejas católicas;

termas sórdidas convertidas em sóbrios conventos;

colunas dóricas fundidas no arcabouço de palácios;

vilas populares brotando das ruínas dos anfiteatros;

catacumbas repovoadas por turistas em caravanas…

E enquanto os vivos se amontoam sobre os mortos,

silenciosamente pulsa um imenso coração de pedra.

 

 

A QUEDA DE ROMA

 

Por sete noites caminhei

ao longo das muralhas de Roma,

como um lobo à espreita da caça,

um selvagem faminto de História,

 

imaginando quantos prazeres e dores

aqueles muros suportaram calados,

quantas vidas limaram suas pedras

com segredos nunca mais revelados.

 

Súbito, uma trepidação medonha

arrancou os romanos da sesta.

Até os satélites registraram

o turbilhão das ruínas em pó. 

 

Quem destruiu as muralhas de Roma?

Não culpem os bárbaros nem os Barberinis.

Eu vi: foram os Fiats e os Ferraris.

 

 

AS RUÍNAS DE KARNACK

 

Para as ruínas de Karnack,

onde templos se ergueram

às longas margens do Nilo,

antes de cair em pedaços,

no ar brilhante e seco,

tão cheio de mosquitos…

 

Para as ruínas de Karnack,

onde há quarenta séculos

deuses mugiam ferozes

estremecendo pirâmides

e abrindo rios de sangue

como miragens no horizonte…

 

Para as ruínas de Karnack

zarpamos em caravanas,

destemidos e equipados

para tirar o sono dos deuses

com os relâmpagos disparados

por nossas câmaras Kodak.

 

 

LAMENTO

 

Perdemo-nos de vista

nos últimos dez anos…

Que triste reencontro!

O tempo soprou

um a um seus cabelos,

agora ralos fios

prateados e sem viço.

Os olhos, outrora vivos,

agora encovados nas órbitas!

E o porte tão esguio

de seu corpo esbelto,

esvaziou-se lentamente

como um balão de ar.

Como o tempo é cruel,

fiquei a lamentar

depois que ele se foi,

sabendo que de mim

ele levava exatamente

a mesma impressão.

 

 

O SONHO DO HOMEM

 

O homem sonhava.

Foi obrigado a guerrear

até transformar-se em herói.

O homem sonhava.

Foi obrigado a trabalhar

até transformar-se em herói.

O homem sonhava.

Foi obrigado a amar

até transformar-se em herói.

O homem sonhava.

Foi obrigado a sonhar

até transformar-se em herói.

O homem sonhava.

Seu sonho não tinha fim…

Que era isso? Que era?

Que doença essa sem cura?

Guerra, trabalho, amor e sonho:

o homem já fora obrigado a tudo – e continuava a sonhar! Cansado,

o homem livrou-se do herói e realizou seu sonho.

E essa é a história da humanidade.

 

 

POESIA DAS COISAS NATURAIS

 

A pedra pulsa,

como viva, nas mãos de

de Fabrício Fernandino.

 

O artista propõe

à informe natureza

sua sensível disciplina.

 

E os blocos, em lascas,

logo recordarão

as inscrições de Nazca.

 

Lendo versos no universo,

faz aflorar o espírito

sobre a matéria bruta,

 

esculpindo o silêncio,

subitamente petrificado,

em sutis saliências.

 

E o ser passa a ser,

pelo artista contemplativo,

delicadamente modelado.

 

Nas trilhas do coração

a mão transforma a matéria

em seu próprio sonho.

 

E não cessa de procurar,

na superfície esfolada,

a essência intangível.

 

Contra o não da matéria

a mão imprime, certeira,

sua vontade primeva.

 

E não se faz de rogada,

pois a mão, machucada,

só é feliz quando faz.

 

Almejando o silêncio,

o artista se cala. Mas a mão

não pára, e luta para alcançar

 

o silêncio que emana

do gesto ao sufocar

sua expressão derradeira.

 

Cala-se enfim o pensamento,

concentrado na forma

que busca a perfeição.

 

E quando atinge a meta

da pura contemplação

a obra fala por si.

 

Desejaria o artista modelar

a vida inteira,

como um bloco sem fim?

 

Mas por quê? Para quem?

Para quê? E o quê?,

paralisam as dúvidas.

 

Entre os pontos

de interrogação,

somente o labor

 

traz a resposta:

o prazer de criar

justifica o criador.

 

E ele celebra na forma

da natureza humanizada

toda a grandeza da vida.

 

Suas obras recordam

menires, megálitos e pirâmides,

essas fontes de energia;

 

evocam o Fujiama, o Tabor,

 o Olimpo, o Sinai

e outras montanhas mágicas;

 

inspiram-se nas águas sagradas

do Tigre, do Eufrates, do Ganges,

do Nilo e do Amazonas;

 

procuram por florestas e bosques,

figueiras e sicômeros,

pela vegetação santificada;

 

apelam aos astros e aos elementos,

ao animal e ao homem,

a todas as coisas sagradas;

 

sonham dançar com gigantes,

sob a noite estrelada,

no altar de Stonehenge;

 

e convocam rabdomantes

para captarem em transes

as emanações cósmicas.

 

Se a estranha face da Terra

é um livro escrito por Deus,

com seu alfabeto de pedras,

 

o escultor decifrou a mensagem:

ora prazer, ora dor, ora sim, ora não,

a vida não é pedra, é mutação.

 

 

AS RUÍNAS DA MODERNIDADE

 

Terror

 

Este é o tempo dos terroristas sem causa:

o Fanático, com um míssil portátil;

o Cientista, com seu tubo de vírus;

o Guru, com ampolas de sarín…

lançam um ultimatum à modernidade.

Mesmo o Império é impotente

frente ao terrorismo de massa.

O Anônimo só precisa

acessar na Internet

o sítio das bombas caseiras.

Depois da catástrofe,

a Sky Television, a ABC,

a BBC, a CNN, a NBC

e outros 500 canais a cabo

darão ao Anônimo

seus quinze minutos de fama.

Todos saberão o que ele fez.

E se alguém ainda não sabe

o que está por trás da explosão,

a resposta é um mal sem cura:

o Anônimo não mata por gosto,

mas para deixar o anonimato

de uma maneira rápida e segura.

 

Os Meios

 

Os meios do novo terror

tornaram-se sofisticados:

molotovs, bombas, fuzis,

já são armas do passado.

O novo terrorista dispõe

de mísseis, foguetes, radares,

vírus para os computadores

gases e isótopos irradiados,

culturas de germes fatídicos,

armas suaves e penetrantes

adequadas à meta ambiciosa

de uma matança sem discriminação

de idade, sexo, classe,

etnia, cor, religião.

 

Os Fins

 

O Anônimo não luta mais

por uma “causa”, nenhuma:

a liberdade individual,

a justiça universal,

a democracia popular,

a independência nacional,

não lhe servem de utopia.

A grande meta política

que o Anônimo visa

é a divulgação do atentado:

as ruínas multicoloridas

estampadas nos jornais e revistas,

o grande número de mortos e feridos

nas transmissões ao vivo

são os mais altos fins perseguidos

pelo terrorista atualizado.

 

Os Membros

 

Os membros do terror organizado

são treinados para suprimir

suas emoções pessoais.

Se crescem odiando seus pais,

mestres, e sobretudo a si mesmos,

são àqueles outros, os inimigos,

que não pertencem ao círculo íntimo

de seus ódios familiares,

que dedicam um ódio sem ódio,

vazio de sentimento,

mas tão constante e sistemático,

que corta como navalha.

E como os impuros merecem morrer,

trucidam-nos como se fossem

espantalhos feitos de palha.

 

As Vítimas

 

Os alvos do novo terror

não são mais as grandes figuras

da autoridade e do poder.

Os ministros seqüestrados

e os embaixadores em festa

são as vítimas bissextas

de um terror ultrapassado.

As baixas do novo terror

são soldados, funcionários,

consumidores, comerciários,

pedestres na rua, no metrô,

crianças na creche e na escola.

O Anônimo almeja criar,

no Estado democrático,

um estado de estupor,

um Estado a dominar:

um estado de terror.

 

O Anônimo

 

Mas quem será o Anônimo?

Um membro do ETA, do IRA, do GIA,

do Hamas, do Hezbollah,

das Milícias de Michigan,

ou até da velha Ku Klux Klan.

Um franco-atirador solitário,

Unabomber, hacker, serial-killer,

guru de seita fanática,

homem-bomba, anjo exterminador.

Um membro da massa anônima,

um homem da multidão,

sem rosto nem importância,

só lembrado por um rastro

e um oco, de sangue e destruição.

 

Ruínas

 

Com o que se parecem os prédios

depois de um atentado moderno?

Com cenários de teatro,

com casinhas de bonecas.

É assim que os novos terroristas

imaginam seus próprios alvos,

destroçando pessoas vivas

como se fossem de brinquedo.

Na mente do terrorista atualizado,

a fantasia não é uma dimensão

separada do real: tudo lá se fundiu,

e mata-se também por diversão.

 

Modernidade

 

A modernidade criou

seus próprios destruidores:

o corpo a corpo é passado;

o mundo se automatizou:

o artesanato gerou a indústria,

que gerou a eletrônica,

e a robótica, que tornou as massas

tão completamente supérfluas

que se pode exterminar sem cerimônia.

Assim, a morte agora vem em massa:

não se morre mais só, um por um,

mas aos montes, coletivamente,

e mesmo estranhos voam juntos,

em pedaços, até a vala comum.

 

Prevenções

 

Percebemos melhor o caráter totalitário

do novo terror nas medidas preventivas

que os Estados tomam para a sua segurança.

Tempos atrás, a Prefeitura de Paris fez lacrar

todas as latas de lixo da cidade – todas:

para que o Anônimo não pudesse mais

esconder ali seus explosivos caseiros.

Os grandes aeroportos fizeram instalar

máquinas de radiografar passageiros,

para expor não apenas seus pertences,

como também seus ossos e genitais.

Escutas telefônicas nas linhas particulares,

rastreamento de mensagens eletrônicas,

câmeras monitorando-nos em toda parte:

a sua segurança exige o fim da privacidade

nos Estado ameaçados, que a todos controlam.

 

Esperança

 

Assim, é preciso continuar vivendo

como se nada estivesse acontecendo,

como se fosse impossível que,

a qualquer momento,

voássemos pelos ares,

o pulmão inflado de gás,

o sangue contaminado

por uma nova peste bubônica,

atingidos pelo Anônimo

como sombras apagadas

por um estilhaço, uma bomba.

É preciso dar, enfim,

à negação da realidade,

o belo nome de esperança.

 

 

© Luiz Nazario, 2000.




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