
A formiga de cristal. Foto: Hugo Rondas
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Segredos (2000) foi publicado em edição limitada a 500 exemplares, com ilustrações do artista plástico Oswaldo Medeiros – de saudosa memória -, em páginas impressas uma a uma com fontes tipográficas e encadernação artesanal. Cada exemplar é uma edição única, obra de adolescentes em situação de risco, que aprenderam a arte da gravura e da tipografia graças ao projeto Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura, que tem a missão de recuperarar a memória gráfica mineira ajudando menores vulnerabilizados a encontrar, através da arte, novo sentido para suas vidas.
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MANIFESTO DOS COGUMELOS GIGANTES
No princípio, tudo era caos e trevas.
Com a vida encerrada em castelos,
os homens só travavam santas guerras,
enquanto as mulheres discutiam
quantos anjos de fato poderiam
dançar na cabeça d’um alfinete.
Contudo, esse estado de coisas
não havia de durar eternamente.
Dinamitamos as orientais represas
que armazenavam o ouro dos árabes.
A luz se derramou sobre as cidades
e sobre o ouro assentamos nossa liberdade.
Edificamos palácios e lojas,
navegamos em círculos até o Camboja.
Descobrimos novos mundos,
catequizando povos imundos.
Enriquecemos mais e mais
fundando impérios coloniais.
As moedas multiplicadas,
em novas empresas lançadas,
criavam as riquezas mágicas
de nossas indústrias básicas.
À nossa glória ao mundo legamos
as mais belas criações do gênio humano:
testemunhos do poder e do requinte
de nossa fantasia sem limites.
Despedaçamos sem piedade
os nós que atavam a sociedade.
E dobramos com esperteza
a mais que flexível natureza.
Transformamos médicos, juristas,
cientistas, literatos e artistas
em dóceis servidores assalariados.
E como nada estava escrito no céu,
rasgamos o terno véu
do sentimentalismo familiar.
Crescemos até as nuvens,
levando nossa civilização
até os mais altos cumes.
E, para calar os queixumes,
cravamos bem fundo
um capital em cada coração.
Por fim, os joelhos do mundo
dobraram aos nossos pés.
Ninguém conheceu tanto poder desde Ramsés.
Mas foi então que nosso brilho
começou a se apagar:
nada mais tínhamos a dar!
E se para seguir vivendo
tínhamos de continuar crescendo,
essa situação contrafeita,
em que a História nos metia,
logo tornou suspeita
nossa fome de mais-valia.
As revoltas pipocaram
na face lisa das nações.
Pressentimos a morte de novo,
bicando forte nosso ovo,
para espalhar toda a gema,
e a clara do sistema, talvez…
Mas, não, nada tema: um, dois, três,
com Smith não há problema!
Para desterrar a esperança
plantamos cogumelos gigantes,
satisfazendo os consumidores
nesse antro já sonhado por Dante.
Ah, nem todos os perfumes da Avon
poderiam limpar as nossas mãos…
E ainda que conclamassem:
“Cadáveres de todo o mundo, uni-vos!”
nenhum morto-vivo tomaria parte
nessa desvalida luta de classes.
Nossos cogumelos intoxicaram
os velhos sujeitos da revolução!
A roda infernal foi quebrada…
E que a humanidade, tão afoita,
fique para sempre aleijada, a se arrastar
pelos cantos, sem a bela redenção!
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OS PÁSSAROS
Pelos fios de eletricidade,
namoramos pelas cidades,
pássaros raros,
sem árvores para o pouso.
E voamos, percorrendo o mundo,
falando todas as línguas,
agitando nossas plumagens,
Últimos representantes
de uma espécie em extinção.
Só namoramos,
sem poder procriar,
porque as árvores
em que fazíamos nossos ninhos
não existem mais
em nenhuma parte.
Só nos restaram
os fios de eletricidade
para nos encontrarmos
e cantarmos
nosso último canto de amor.
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O FIM DA HUMANIDADE
Quando olhaste de relance para mim,
entornando um copo de bebida ruim,
e me disseste calmamente
que estavas morta há alguns dias,
confesso não ter dado a atenção devida.
Pensei que estavas só cansada,
depois de outra jornada de trabalho.
Só mais tarde foi que descobri
teu ser a decompor-se no festival dos vermes.
E mesmo sóbria assistias, inerme,
ao teu próprio banquete.
Incrível!
Não pude mais ficar contigo.
Desculpe, querida,
já enterrei muitas mulheres em minha vida.
Tu és apenas outro corpo
que espera o fim dos dias.
Jogarei teus restos no oceano
para que os peixes devorem
tua carne jovem e teus lindos sonhos.
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A FLOR SEM PÉTALAS
Ao perder suas pétalas,
a flor permanece flor,
em seu cálice,
em seu perfume,
incompleta e desfeita,
imperfeita e sem cor,
horrivelmente bela,
horrivelmente flor,
eternamente saudosa
do que foi.
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OLHOS FALSOS
Teus lindos olhos verdes
traíram-me de fato!
Mas quem diria fossem eles
duas lentes coloridas de contato?
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A QUEDA
Nem sei mais desde quando…
Desde sempre?
Nem sei bem por quê…
E já soube?
Fui caindo, caindo,
como do céu um meteorito,
chorando a vida brilhante
que levava perto do sol.
Hoje, aqui, no chão frio,
entre caixas e vidros vazios,
coberto de trapos e feridas,
deposito toda esperança
numa nova lata de lixo.
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UM HERÓI
Na luta contra o crime
um policial foi baleado em ação,
morrendo três dias depois,
no leito de um hospital.
Seu retrato foi pendurado
na sala de espera
de uma das repartições
de uma das dependências
de uma das seções
de um dos setores
do Departamento.
Seu nome até hoje é lembrado
por três velhos parentes
e seu fiel companheiro,
que nunca se conformou.
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DOCUMENTO ESPECIAL: AS ÚLTIMAS PALAVRAS DO HERÓI
“Atenção, senhor terrorista! Afirmamos que sua única chance de salvarse é libertando os reféns o mais breve possível. Insistimos que é absolutamente necessário libertar os reféns para entrarmos em negociações. O edifício está cercado. Fugir é impossível, ainda que improvável. Cumpriremos ordens superiores. Atiraremos para matar. Não tente enfrentar nossas forças. Somos oitocentos milhões de policiais armados até os dentes, com metralhadoras, bombas, bazucas, tanques, catapultas, discos voadores, raios gama, água pesada, barulho infernal, Winchesters e desespero. Considere-se um homem morto. Cumpriremos nosso dever. Não tente maltratar os reféns. Não tente correr. Não tente cruzar as pernas. Não tente gritar. Não tente fugir com asas de cera. Não tente inclinar o corpo. Não tente respirar fundo. Não tente pular a cerca. Não tente ficar no escuro. Não tente morrer sozinho. Entregue-se, senhor terrorista!”
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REFLEXÕES SOBRE A CRISE DO DESEJO
A mais radical negação do ser não é o nada, porque o nada vem ao mundo pelo ser, como do nada vem o ser ao mundo. A negação mais radical do ser é a pedra, porque é eterna. Insensível, fria, opaca, inteira, confiante, objetiva e idêntica através dos séculos, a pedra resiste ao desejo com toda a força de seu peso. Haverá algo de mais estranho à vida quanto a estátua de pedra que assassina Don Juan? Contudo, um personagem de Samuel Beckett exclama que tem necessidade de barulho, de barulho seco e duro, do barulho das pedras que se chocam, pondo-se a bater, pedra contra pedra, com raiva e força crescentes, as pedras que segura nas mãos: “É isto a vida! Não esta… sucção!”.
É a consciência da sucção que nos leva ao desejo e à morte. Quando a História obriga o desejo à inflexão, ele se cristaliza numa natureza ambígua, a um tempo dura e translúcida, para conservar sua qualidade essencial enquanto se torna mais resistente que a carne, que não cessa de ser devorada. No diamante revela-se um valor superior da natureza: pequeno e incorruptível, é capaz de cortar lascas e lascas de vidro. Essa imortalidade, que só existe no coração dos homens enquanto recordam os que morreram pelo desejo, é o tesouro frágil que resiste aos Titãs, monolitos destinados a racharem-se nos entrechoques da História.
O símbolo da afirmação do desejo não será, então, o omphalós, o umbigo do mundo, caído do céu em Astéria, ilha flutuante e estéril, único asilo que encontrou a mãe de Apolo, perseguida por Hera, onde pode finalmente dar à luz o deus da juventude imberbe, que nomeará sua terra devastada de Delos, a brilhante (…único refúgio para a maternidade?). E o símbolo da negação do desejo não será a pedra romana que fechava o mundus, buraco do Palatino pelo qual se chegava ao inferno, impedindo os homens de experimentar com seus próprios órgãos a existência real dos demônios (…exclusiva prerrogativa paterna?).
Os mitos podem ajudar a razão a sustentar a permanência de uma essência humana generosa, que a História destrói. Mas como sangrar de paixão num mundo desmistificado? Se admitirmos uma nova inflexão do desejo, ele não se ocultará apenas nos valores superiores da natureza, como também nos valores superiores da cultura, que vai ao socorro dos feridos de morte em sua humanidade: mães, crianças, velhos e amantes – silenciados e difamados pelos adultos, porque aprenderam na carne o seu segredo: o poder é impotente, e as pirâmides que constrói, inúteis e sem valor.
Se cada ser é um rio de sangue, e se cada rio tem seu próprio curso, cada homem tem seu próprio destino. Mas também os rios, se não se os canaliza e os deixa livres, correm naturalmente para o mar. Se querem os homens realizar sua essência humana, não deveriam romper os diques em direção à humanidade? E assim como o mar é suficiente para justificar a existência dos rios, a humanidade seria bastante para despetrificar o mundo, justificando a existência dos homens. O desejo é infinito. Desviado para objetos alheios aos seus fins originais, permanece infinito. Negado historicamente, materializa-se em tudo o que nega a humanidade nos homens. Por isso o desejo não se reprime nem se representa sem catástrofe: é a própria substância do ser, que permanece transparente sob as vestes, carente até a morte.
Desce outra noite no inferno de Eurídice. Enquanto o tempo devora o tempo e o ser desvela o ser, soa a música de Orfeu: movendo florestas e pedras, pacificando as feras do caminho, canta de novo o desejo…
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A FLOR DE PLÁSTICO INCINERADA
Uma flor ao longe,
congelada em seu silêncio.
Não cresce em parte alguma,
não produz néctar nem brotos:
é reproduzida em série,
uma igual à outra,
aos milhões se for preciso.
Nenhuma seiva corre dentro dela.
A flor de plástico não pediu para nascer
e porisso jaz inerte
num tempo que não a afeta.
Inocente em sua violência,
ela não morre sozinha.
É preciso que a desfaçam
para que retorne
à humanidade que a criou
num instante de medo.
Quando o planeta desabitado
girar vazio no espaço,
a flor de plástico continuará
intacta e brilhante entre os escombros.
Mas, então, de que lhe servirá existir?
Não me inquieta na flor de plástico
a sua eternidade,
mas a cor imaginária
das coisas que não têm essência.
Liberta das estações,
a flor de plástico desafia a natureza
porque é uma afirmação do humano
que o nega radicalmente.
Porisso eu canto a flor de plástico,
e canto a sua destruição.
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O CORPO SEM OSSOS
Tudo começou no azul e no vermelho. A fumaça entorpecia meus sentidos e fazia-me carne sem ossos, estrutura ausente de identificação: como se o mundo estivesse a ser invadido por máquinas de guerra. Todos contra todos: era a formação pretendida pelo gigantesco cérebro automático. A civilização atingia a fase extrema em que seus membros tornavam-se médiuns do poder invisível, confundido com a água do útero, o leite do peito e o alimento do corpo: regredíamos ao canibalismo, sublimado em diversão. Eu enfrentava, de mãos vazias, esse monstro só ossos que devorava a humanidade. Recoberto de carne, ele iludia suas vítimas com a aparência da vida, fascinando-as à primeira vista. É que se tratava de um falo, excitado e excitante, que só mais tarde revelar-se-ia destruidor.
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Caninos de vampiro,
garras afiadas,
o monstro projeta-se
sobre a humanidade.
Seu fim é devorar a carne
e devolver os ossos.
Seu nome é Nuclear.
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Caem as últimas folhas.
Aranhas tecem suas teias.
Uma criança chora ao luar.
Um lobo espreita.
A mãe precisa trabalhar.
É uma das funcionárias
daquela usina nuclear.
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pergunte o que fazer.
Se não sabe, está perdido.
Vampiro vampirizado
das pedras e dos ossos.
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Artelhos, grupelhos.
caveiras, ossinhos,
esqueletos, discursos:
signos articulados.
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Iludidas pelo poder,
as massas morreram.
Das cinzas nasceram
os homens eternos.
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Um vampiro bailava na cidade…
Mas algo o fez secar lentamente:
ele bebeu o sangue do diabo
que as crianças lhe deram.
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Hoje acordei com mais sangue nas veias:
sonhei que a vida
era mais forte que a morte.
E senti a terra tremer.
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Falharam as mágicas
do repertório sinistro.
Caem as cartolas e os ministros.
Nascem as estrelas e os profetas.
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Todo homem pode ser um santo.
A santidade é a humanidade pura.
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Arrependeu-se o criminoso
ao descobrir
que a lei gera o crime.
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Renasce a esperança:
o Mal desintegra o Mal.
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Os últimos dias da barbárie começaram
quando os animais igualaram-se a Deus.
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Da barbárie nascerá uma nova Grécia:
a filosofia descerá às ruas
para levar o homem ao paraíso.
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A poesia jorra:
quebrou-se a pedra escondida.
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Quebraram-me os ossos
até a felicidade: razão e carne.
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Em meu corpo
não há lugar para o crime.
Está fechado aos vampiros,
aberto à luz.
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Procura o sonho
quem não o vive.
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Quando nos conhecemos
no pátio da universidade
lendo Simone de Beauvoir
e Jean-Paul Sartre,
ainda não sabíamos
que seríamos, um para o outro,
como Jean-Paul Sartre
e Simone de Beauvoir:
jurando amor eterno,
espalhando-o pelo mundo.
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Sem artelhos, ossinhos,
caveiras, esqueletos,
grupelhos, discursos,
usinas, armamentos,
Apenas o léxico, o fluxo,
o nexo, o plexo e o sexo.
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Nada de lutar para viver:
deixar que a vida escorra.
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Seremos um corpo sem ossos,
dentes, unhas ou articulações:
puro molejo, pura delícia.
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Quebrar os ossos do corpo,
quebrar os ossos do mundo,
quebrar os ossos da bomba,
quebrar os ossos da morte:
viver, viver, viver, viver.
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Nada de partido, polícia, estado.
Apenas homens, frutos e poesia.
Nada de pátrias, sonhos e mitos:
apenas a vida sagrada.
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No universo sagrado,
tudo é fluido e flui
num movimento único
de gozo e terror.
Entre o Ser e o Nada,
a vida se transforma
num anjo vingador.
As feras amansam
quando ele passa.
As mulheres põem-se
sob suas asas.
As crianças o acolhem
como um super-herói.
Mas os homens pensam:
“Tudo é relativo”,
e, quando o anjo volta as costas,
abraçam a morte.
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Amortecer a catástrofe com amor:
o amor universal dos amantes,
o amor que sangra sobre nós,
o amor puro e verdadeiro,
o amor sem meios,
o amor difamado,
o amor liberto,
o amor amor.
E com o amor tecer o infinito Ser.
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Bastam poucas aventuras
para colorir a Terra.
Com apenas dois homens
pode haver um diálogo.
Mas são precisos seis bilhões
para existir a humanidade.
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Não nos querem radicais.
Mas sem raízes secamos.
Ser radical é ser humano:
colher os frutos das árvores
sem arrancar suas raízes;
colher os frutos dos homens
sem tolher suas liberdades.
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Amigo: seja também meu inimigo,
para que possamos viver juntos
a existência inteira.
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A máscara disfarça o medo.
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Quiseram convencer-nos
de que éramos maus,
de uma natureza perversa.
Que nossos desejos mais puros
eram maquinações do inimigo.
Mas a liberdade revelou-se
tão infinita quanto o poder.
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Não falo aos idiotizados pelos meios,
mas aos pacificados pelos fins.
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Não quero o osso,
mas a carne.
Não quero a imagem,
mas a coisa.
Não quero a massa,
mas o ser.
Não quero os meios,
mas os fins.
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O gesto mimético,
o verbo automático,
o revide reflexo,
o beijo em anexo:
tudo me agride.
Nada me ilude:
nem a cibernética,
nem a informática,
nem a telemática.
Sou apenas carne:
estética, ética, erótica.
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O homem não nasce vazio,
para que metam dentro dele
valores estabelecidos.
O homem nasce completo
e apenas, com o tempo,
vai se descobrindo.
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Toda minha vida passei a pão e água,
todos esses anos -
esmagado pelo desejo,
querendo que todas as carências
me invadissem
para que eu pudesse dar ao mundo
a palavra divina.
Eu era o refém da morte.
Mas, no último momento,
a morte fugiu de si própria:
era vida retorcida.
E se ela agora quer
sugar-me mais um pouco,
agora já não dou
mais meu sangue a ninguém.
Longa demais foi a opressão,
e desta vez tive tempo
de aprender seus mecanismos.
Se estamos às vésperas
do cataclismo,
do choque,
do perigo extremo,
sob a custódia
de potências infernais,
iguais em tudo,
o limite, o limite chegou.
Chegamos ao fim da porcaria.
A cultura revelou-se carne,
apenas carne.
Sim, não há ossos em meu corpo.
Verifiquei ontem à noite,
e não encontrei nenhum.
Desossado eis-me entregue
ao infinito
de outro infinito
tão desossado quanto eu.
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Caem nossas últimas lágrimas.
Últimas porque as queremos últimas.
Talvez nos arrebente uma bomba atômica.
Talvez um punhal penetre nossa carne virgem.
Ainda assim revela-se a natureza
em sua perfeita ambigüidade.
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Ser o que se desejar ser.
Viver a vida sem meios.
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Sem relação:
a vida no estado puro.
Contra a morte da relação
no estado puro.
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E quando tudo acabar,
iremos abrir nossas almas
para que nossos corpos
possam amar sem remorsos.
Transformaremos nossas vidas
em obras de arte e de amor.
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É sagrado o seio
que a mãe dá ao filho.
É sagrado o pranto
de quem vê e não fala.
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Nosso corpo será intocável:
foi só o que restou da vida,
e a vida é sagrada.
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Construiremos o corpo sem ossos
sobre as ruínas desta terra devastada.
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A ORQUESTRA MINÚSCULA
Num cantinho encantado do mundo
existe uma orquestra minúscula.
Cada um de seus instrumentos
não é maior que um dedal.
Os músicos dessa orquestra
são homúnculos muito tímidos,
que passam uma eternidade
afinando seus instrumentos.
A orquestra minúscula
é uma sensação, um prodígio,
mas raramente se apresenta.
E não se pode contratá-la:
ela não tem empresários,
nem se exibe em teatros.
A orquestra minúscula
só irrompe em momentos mágicos.
Ela toca para os que agonizam,
depois de uma vida plena;
para os amantes que se encontram,
depois de uma busca infinita;
para as crianças perdidas,
e os gênios desesperados.
A orquestra minúscula
toca para poucos.
Sua música maravilhosa é abafada
pelo burburinho do mundo,
mas os que a ouvem são transportados
para uma outra realidade.
Eu ouvi a orquestra minúscula.
Estava tão triste, tão triste…
Foi quando escutei a melodia.
Tomei depressa de uma lupa
e vi os músicos pequeninos
em seus fraques brancos
afinando seus instrumentos,
esperando, nervosos,
que eu parasse de chorar,
e fizesse silêncio absoluto.
Enfim, o milimétrico maestro
dançou no ar com a batuta.
Que beleza, que encanto,
todos vestidos de gala,
tocando-me suas partituras
tão únicas, tão ensaiadas.
Os instrumentos miniaturas
reluziam como pequenas jóias.
Sons delicados e suaves
inundaram-me de alegrias,
elevando-me para além de toda dor
e de toda expectativa.
A musiquinha tornou-me mais puro,
como todos aqueles que sonham.
Desde então, vivo a esperar
por uma nova audição.
A orquestra minúscula gosta de tocar
para os que são absolutamente sós.
E que grande prazer ouvi-la,
depois de suportar o insuportável.
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O TEMPO E A MORTE
Diz o Tempo à sua irmã:
“Sou poderoso, maninha:
carrego nos meus ombros
toda a História do mundo!”
Responde-lhe a fria Morte:
“Enquanto isso despedaço
todos os sonhos dos homens.
Eu é que sou mais forte!”
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O EUNUCO
Meu desejo
é um rio seco
que não pára
de correr.
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VAZIO
Nas minhas noites brancas
ou nos meus dias brilhantes
é tua ausência quem rouba
o sentido de cada instante.
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A LINHA RETA
Do primeiro erro trágico
todos os outros nasceram,
numa progressão contínua,
rapidamente acumulada,
de catástrofes sucessivas,
só encerradas no inevitável
e mais amargo sucedâneo
de tamanha inconseqüência.
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PARAÍSO EM CHAMAS
Há um paraíso perdido
nas almas mais mesquinhas,
uma pequena chama de amor
nos corpos mais viciosos,
um brilho frágil que sustenta
toda a miséria do mundo.
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MISTÉRIOS
Foi por fim vencida
a Invencível Armada Espanhola
Já na sua primeira viagem
o inafundável Titanic afundou.
Mas, quando lançado no ar,
um gato sempre cai de pé.
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ENTRETENIMENTO
Que desperdício fixar,
derrubando florestas,
tantos sorrisos e gestos
de estúpidas carcaças!
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WEIMAR, 1991
Eu vi a morte em Buchenwald,
em pedras negras como cicatrizes,
e na árvore decepada de Goethe,
sem tronco, galhos ou raízes.
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AS RUAS DE ROMA
Não há uma única rua de Roma
que não me desperte a lembrança
de tê-la um dia percorrido. Pois certa tarde,
enquanto eu caminhava pela Via dei Greci,
minha alma saiu de meu corpo
e sobrevoou todo o Corso,
da Via del Gambero à Piazza del Poppolo,
abraçando todas as paralelas e transversais.
Se a nenhum homem é dado
conhecer Roma por completo
minha alma, pondo-se a vagar
naquele labirinto de pedras,
retornou ao meu corpo tão feliz
como nenhum homem jamais o foi ou será
por não poder, na sua breve existência,
ter Roma inteira em seus braços.
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AS IDADES DE ROMA
Roma acolhe, maternal, toda a confusão do mundo:
templos pagãos transformados em igrejas católicas;
termas sórdidas convertidas em sóbrios conventos;
colunas dóricas fundidas no arcabouço de palácios;
vilas populares brotando das ruínas dos anfiteatros;
catacumbas repovoadas por turistas em caravanas…
E enquanto os vivos se amontoam sobre os mortos,
silenciosamente pulsa um imenso coração de pedra.
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A QUEDA DE ROMA
Por sete noites caminhei
ao longo das muralhas de Roma,
como um lobo à espreita da caça,
um selvagem faminto de História,
imaginando quantos prazeres e dores
aqueles muros suportaram calados,
quantas vidas limaram suas pedras
com segredos nunca mais revelados.
Súbito, uma trepidação medonha
arrancou os romanos da sesta.
Até os satélites registraram
o turbilhão das ruínas em pó.
Quem destruiu as muralhas de Roma?
Não culpem os bárbaros nem os Barberinis.
Eu vi: foram os Fiats e os Ferraris.
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AS RUÍNAS DE KARNACK
Para as ruínas de Karnack,
onde templos se ergueram
às longas margens do Nilo,
antes de cair em pedaços,
no ar brilhante e seco,
tão cheio de mosquitos…
Para as ruínas de Karnack,
onde há quarenta séculos
deuses mugiam ferozes
estremecendo pirâmides
e abrindo rios de sangue
como miragens no horizonte…
Para as ruínas de Karnack
zarpamos em caravanas,
destemidos e equipados
para tirar o sono dos deuses
com os relâmpagos disparados
por nossas câmaras Kodak.
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LAMENTO
Perdemo-nos de vista
nos últimos dez anos…
Que triste reencontro!
O tempo soprou
um a um seus cabelos,
agora ralos fios
prateados e sem viço.
Os olhos, outrora vivos,
agora encovados nas órbitas!
E o porte tão esguio
de seu corpo esbelto,
esvaziou-se lentamente
como um balão de ar.
Como o tempo é cruel,
fiquei a lamentar
depois que ele se foi,
sabendo que de mim
ele levava exatamente
a mesma impressão.
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O SONHO DO HOMEM
O homem sonhava.
Foi obrigado a guerrear
até transformar-se em herói.
O homem sonhava.
Foi obrigado a trabalhar
até transformar-se em herói.
O homem sonhava.
Foi obrigado a amar
até transformar-se em herói.
O homem sonhava.
Foi obrigado a sonhar
até transformar-se em herói.
O homem sonhava.
Seu sonho não tinha fim…
Que era isso? Que era?
Que doença essa sem cura?
Guerra, trabalho, amor e sonho:
o homem já fora obrigado a tudo – e continuava a sonhar! Cansado,
o homem livrou-se do herói e realizou seu sonho.
E essa é a história da humanidade.
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POESIA DAS COISAS NATURAIS
A pedra pulsa,
como viva, nas mãos de
de Fabrício Fernandino.
O artista propõe
à informe natureza
sua sensível disciplina.
E os blocos, em lascas,
logo recordarão
as inscrições de Nazca.
Lendo versos no universo,
faz aflorar o espírito
sobre a matéria bruta,
esculpindo o silêncio,
subitamente petrificado,
em sutis saliências.
E o ser passa a ser,
pelo artista contemplativo,
delicadamente modelado.
Nas trilhas do coração
a mão transforma a matéria
em seu próprio sonho.
E não cessa de procurar,
na superfície esfolada,
a essência intangível.
Contra o não da matéria
a mão imprime, certeira,
sua vontade primeva.
E não se faz de rogada,
pois a mão, machucada,
só é feliz quando faz.
Almejando o silêncio,
o artista se cala. Mas a mão
não pára, e luta para alcançar
o silêncio que emana
do gesto ao sufocar
sua expressão derradeira.
Cala-se enfim o pensamento,
concentrado na forma
que busca a perfeição.
E quando atinge a meta
da pura contemplação
a obra fala por si.
Desejaria o artista modelar
a vida inteira,
como um bloco sem fim?
Mas por quê? Para quem?
Para quê? E o quê?,
paralisam as dúvidas.
Entre os pontos
de interrogação,
somente o labor
traz a resposta:
o prazer de criar
justifica o criador.
E ele celebra na forma
da natureza humanizada
toda a grandeza da vida.
Suas obras recordam
menires, megálitos e pirâmides,
essas fontes de energia;
evocam o Fujiama, o Tabor,
o Olimpo, o Sinai
e outras montanhas mágicas;
inspiram-se nas águas sagradas
do Tigre, do Eufrates, do Ganges,
do Nilo e do Amazonas;
procuram por florestas e bosques,
figueiras e sicômeros,
pela vegetação santificada;
apelam aos astros e aos elementos,
ao animal e ao homem,
a todas as coisas sagradas;
sonham dançar com gigantes,
sob a noite estrelada,
no altar de Stonehenge;
e convocam rabdomantes
para captarem em transes
as emanações cósmicas.
Se a estranha face da Terra
é um livro escrito por Deus,
com seu alfabeto de pedras,
o escultor decifrou a mensagem:
ora prazer, ora dor, ora sim, ora não,
a vida não é pedra, é mutação.
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AS RUÍNAS DA MODERNIDADE
Terror
Este é o tempo dos terroristas sem causa:
o Fanático, com um míssil portátil;
o Cientista, com seu tubo de vírus;
o Guru, com ampolas de sarín…
lançam um ultimatum à modernidade.
Mesmo o Império é impotente
frente ao terrorismo de massa.
O Anônimo só precisa
acessar na Internet
o sítio das bombas caseiras.
Depois da catástrofe,
a Sky Television, a ABC,
a BBC, a CNN, a NBC
e outros 500 canais a cabo
darão ao Anônimo
seus quinze minutos de fama.
Todos saberão o que ele fez.
E se alguém ainda não sabe
o que está por trás da explosão,
a resposta é um mal sem cura:
o Anônimo não mata por gosto,
mas para deixar o anonimato
de uma maneira rápida e segura.
Os Meios
Os meios do novo terror
tornaram-se sofisticados:
molotovs, bombas, fuzis,
já são armas do passado.
O novo terrorista dispõe
de mísseis, foguetes, radares,
vírus para os computadores
gases e isótopos irradiados,
culturas de germes fatídicos,
armas suaves e penetrantes
adequadas à meta ambiciosa
de uma matança sem discriminação
de idade, sexo, classe,
etnia, cor, religião.
Os Fins
O Anônimo não luta mais
por uma “causa”, nenhuma:
a liberdade individual,
a justiça universal,
a democracia popular,
a independência nacional,
não lhe servem de utopia.
A grande meta política
que o Anônimo visa
é a divulgação do atentado:
as ruínas multicoloridas
estampadas nos jornais e revistas,
o grande número de mortos e feridos
nas transmissões ao vivo
são os mais altos fins perseguidos
pelo terrorista atualizado.
Os Membros
Os membros do terror organizado
são treinados para suprimir
suas emoções pessoais.
Se crescem odiando seus pais,
mestres, e sobretudo a si mesmos,
são àqueles outros, os inimigos,
que não pertencem ao círculo íntimo
de seus ódios familiares,
que dedicam um ódio sem ódio,
vazio de sentimento,
mas tão constante e sistemático,
que corta como navalha.
E como os impuros merecem morrer,
trucidam-nos como se fossem
espantalhos feitos de palha.
As Vítimas
Os alvos do novo terror
não são mais as grandes figuras
da autoridade e do poder.
Os ministros seqüestrados
e os embaixadores em festa
são as vítimas bissextas
de um terror ultrapassado.
As baixas do novo terror
são soldados, funcionários,
consumidores, comerciários,
pedestres na rua, no metrô,
crianças na creche e na escola.
O Anônimo almeja criar,
no Estado democrático,
um estado de estupor,
um Estado a dominar:
um estado de terror.
O Anônimo
Mas quem será o Anônimo?
Um membro do ETA, do IRA, do GIA,
do Hamas, do Hezbollah,
das Milícias de Michigan,
ou até da velha Ku Klux Klan.
Um franco-atirador solitário,
Unabomber, hacker, serial-killer,
guru de seita fanática,
homem-bomba, anjo exterminador.
Um membro da massa anônima,
um homem da multidão,
sem rosto nem importância,
só lembrado por um rastro
e um oco, de sangue e destruição.
Ruínas
Com o que se parecem os prédios
depois de um atentado moderno?
Com cenários de teatro,
com casinhas de bonecas.
É assim que os novos terroristas
imaginam seus próprios alvos,
destroçando pessoas vivas
como se fossem de brinquedo.
Na mente do terrorista atualizado,
a fantasia não é uma dimensão
separada do real: tudo lá se fundiu,
e mata-se também por diversão.
Modernidade
A modernidade criou
seus próprios destruidores:
o corpo a corpo é passado;
o mundo se automatizou:
o artesanato gerou a indústria,
que gerou a eletrônica,
e a robótica, que tornou as massas
tão completamente supérfluas
que se pode exterminar sem cerimônia.
Assim, a morte agora vem em massa:
não se morre mais só, um por um,
mas aos montes, coletivamente,
e mesmo estranhos voam juntos,
em pedaços, até a vala comum.
Prevenções
Percebemos melhor o caráter totalitário
do novo terror nas medidas preventivas
que os Estados tomam para a sua segurança.
Tempos atrás, a Prefeitura de Paris fez lacrar
todas as latas de lixo da cidade – todas:
para que o Anônimo não pudesse mais
esconder ali seus explosivos caseiros.
Os grandes aeroportos fizeram instalar
máquinas de radiografar passageiros,
para expor não apenas seus pertences,
como também seus ossos e genitais.
Escutas telefônicas nas linhas particulares,
rastreamento de mensagens eletrônicas,
câmeras monitorando-nos em toda parte:
a sua segurança exige o fim da privacidade
nos Estado ameaçados, que a todos controlam.
Esperança
Assim, é preciso continuar vivendo
como se nada estivesse acontecendo,
como se fosse impossível que,
a qualquer momento,
voássemos pelos ares,
o pulmão inflado de gás,
o sangue contaminado
por uma nova peste bubônica,
atingidos pelo Anônimo
como sombras apagadas
por um estilhaço, uma bomba.
É preciso dar, enfim,
à negação da realidade,
o belo nome de esperança.
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© Luiz Nazario, 2000.