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	<title>POESIAS</title>
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	<description>Cpyright: Luiz Nazario</description>
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		<title>POESIAS</title>
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		<title>MEMÓRIA GRÁFICA – TYPOGRAFIA ESCOLA DE GRAVURA</title>
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		<pubDate>Sun, 20 Jun 2010 12:27:24 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Documento]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Elza Maria Santos A Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura – Centro de Internação da Criança e do Adolescente é uma associação sem fins lucrativos, constituída em 1999 por 25 artistas e gravadores mineiros que ao saberem da desativação da extinta Fundação para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) se mobilizou para resgatar a [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meusversos.wordpress.com&amp;blog=14268354&amp;post=33&amp;subd=meusversos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elza Maria Santos</strong></p>
<p style="text-align:justify;">A Memória Gráfica – Typographia Escola de Gravura – Centro de Internação da Criança e do Adolescente é uma associação sem fins lucrativos, constituída em 1999 por 25 artistas e gravadores mineiros que ao saberem da desativação da extinta Fundação para o Bem-Estar do Menor (FEBEM) se mobilizou para resgatar a cidadania de adolescentes vulneráveis recuperando, ao mesmo tempo, as tipografias abandonadas daquela instituição. Sediada à Rua Conselheiro Rocha, 3.800, no Bairro Horto, em Belo Horizonte (MG) ela oferece oficina de artes visuais e gráficas para adolescentes, inclusive alguns privados de liberdade. A idéia partiu do artista gráfico Oswaldo Medeiros, já falecido. A antiga FEBEM possuía máquinas e equipamentos que pertenciam ao Estado, mas os artistas conseguiram autorização de uso.</p>
<p style="text-align:justify;">A administração da Associação era originalmente composta pelo Presidente, Oswaldo Medeiros; Vice-Presidente, Paulo Henrique Pereira Giordano; Secretária, Regina Célia de Vasconcelos; e Tesoureira, Maria Dulce Peixoto Barbosa. A Associação procurou o Conselho Estadual de Direito da Criança e do Adolescente (CEDCA) e conseguiu restaurar os equipamentos e passaram a atender adolescentes entre 14 e 21 anos em situação de risco social e pessoal e em conflito com a lei.</p>
<p style="text-align:justify;">A missão de Memória Gráfica é <em>transformar através da arte</em>. Seu foco principal é a arte-educação, dando prioridade à educação continuada das crianças e dos adolescentes. A entidade começou recebendo cerca de 40 jovens, divididos em três turmas, que freqüentam a associação de segunda a sexta-feira. Eles são beneficiados com uma bolsa de R$80,00, concedida pelo Instituto Credicard e podem participar de todos os eventos da entidade. Atualmente, o projeto atende cerca de 120 adolescentes, entre 15 a 21 anos, a maioria de jovens recolhidos ao Centro de Internação Provisória (CEIP) e ao Centro de Internação do Adolescente (CIA). O projeto atende crianças e adolescentes encaminhados por diversas instituições sociais de Belo Horizonte.</p>
<p style="text-align:justify;">Os profissionais que realizam trabalhos voluntários na associação são assistentes sociais, psicólogos, dentistas, oftalmologistas e ONGs ligadas à saúde; artistas plásticos, encadernadores, artistas gráficos, programadores visuais, escritores. As atividades ensinadas às crianças e adolescentes são de formação artística e gráfica, comunicação e expressão, gravura, computação e editoração, impressão gráfica, encadernação e papelaria. Para que estas crianças e adolescentes se capacitem são oferecidos cursos, treinamentos, seminários e similares em áreas pertinentes por profissionais de formação de pessoal especializado para atividades pedagógicas e de criação em artes, sobretudo para a educação da comunidade em situação de risco social e pessoal. As crianças, adolescentes e familiares têm orientação sobre direitos civis e sociais visando a geração de renda ou emprego.</p>
<p style="text-align:justify;">Segundo Maria Dulce Peixoto Barbosa, o treinamento de jovens por meio de técnicas tipográficas sempre traz bons resultados e ganhos quando voltado para a formação de artistas e artesãos. “O resgate da gráfica artesanal produzindo edições de qualidade, além de gerar renda para os adolescentes e seus familiares, proporciona para nossa cidade o reconhecimento de pioneiros no desenvolvimento de aptidões artísticas dos adolescentes”, afirma. Projetos realizados pela Memória Gráfica:</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Typographia Escola de Gravura</strong><strong> – Oficinas de Formação Artística e Gráfica. </strong>Este projeto engloba oficinas de gravura, impressão gráfica, encadernação e papelaria. Os alunos aprendem também as técnicas de gravura em preto e branco, de recorte, colorida, por eliminação, <em>pouchior</em> e monotipia. As gravuras desenvolvidas são do tipo xilogravura, linóleo gravura e isogravura. Já a oficina de impressão gráfica trabalha as formas de impressão por meio da união da tipografia, do offset e das técnicas de <em>hot-stamping</em>. Impressos como livros, jornais e semanários são confeccionados nessa oficina. Técnicas de encadernação com costura manual, por caderno e simples, espiral, peças gráficas coladas, grampeadas e picotadas, douração e marmorização também são ensinadas e na oficina de papelaria os jovens produzem cartões, pastas, papéis de carta, envelopes e similares. O projeto é patrocinado pela Usiminas, por intermédio da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais.  Outra ação, denominada “De Gutenberg a Bill Gates” complementa o processo de formação dos jovens, por meio da oficina de informática e editoração eletrônica, já que visa à inclusão digital dos mesmos. As aulas oferecem aos participantes a oportunidade de trabalhar com planejamento gráfico e de criar imagens digitais passando para a diagramação e a editoração de livros. Esse projeto foi premiado nos concursos nacionais “Cidadão 21 – Arte”, promovido pelo Instituto Ayrton Senna e Embratel, em 2002 e “Transformando com arte”, realizado pelo BNDES no ano passado. As conquistas tornaram A Memória Gráfica parceiro dessas instituições, o que viabilizou a continuidade do projeto. Memória Gráfica também disponibiliza para comercialização os produtos das oficinas, tais como: cartões de natal, cartões comemorativos, livros e pastas, gravuras, cordéis, agendas, blocos e cadernetas, jornais, panfletos, cartões de visita, camafeu, cartonagem, dentre outros.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Projeto Gravura na Praça: </strong>Oficina Itinerante de gravura e desenho é realizada em praças públicas de municípios mineiros como parte do Circuito Telemig de Celular de Cultura, também promovido por meio da lei de incentivo a cultura do estado. De acordo com os organizadores, com este projeto, os adolescentes atendidos pela Formação Artística têm grande oportunidade de colocar seu apren­dizado em prática já que passam à condição de monitores, integrando a equipe que oferecerá a oficina à população da cidade visitada.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Projeto Edição de Obras Primorosas</strong>: com o apoio da Usiminas, a Memória Gráfica editou quatro livros de caráter artístico e cultural. <em>Segredos</em>, uma antologia de poemas escritos por Luiz Nazario; <em>Roteiro estético das minas enganosas</em>, com textos e críticas sobre a obra de diversos artistas mineiros escritos ao longo de 30 anos pelo por Moacyr Laterza; <em>Mãe África</em>, ensaio de Fidêncio Maciel de Freitas sobre os costumes africanos buscando congruências e semelhanças com as culturas brasileira, americana e européia; e <em>Organizações poéticas</em>, com textos e poemas épicos de Leda Souza Dutra<strong>.</strong></p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Projeto Cordel de Rua: </strong>edição de literaturas de cordel a partir de histórias contadas pelos adolescentes atendidos nas oficinas de “For­mação artística e gráfica”. A ação é patrocinada pelo IMS (Instituto Marista de Solidariedade).</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Projeto</strong> <strong>Clube da Gravura</strong>: por meio deste projeto, cada participante recebe duas imagens de gravuras a cada três meses, sendo uma produzida por um artista renomado e a outra por um dos jovens gravadores.</p>
<p style="text-align:justify;">Todo o material gráfico é produzido através de um processo artesanal, a partir de recursos tipográficos, como clichês, tipos móveis e xilogravura. A encadernação é manual e os impressos são produzidos em máquinas offset, com aplicação de <em>hot-stamping</em>. O conteúdo desse material busca recuperar a história das artes gráficas e o acabamento também é feito pelos adolescentes atendidos pelo projeto.</p>
<p style="text-align:justify;">Os produtos do trabalho dos jovens são vendidos ou apresentados nos eventos de que Memória Gráfica participa. “A verba arrecadada é revertida para a associação, mas nosso principal objetivo com a exposição não é a venda e sim o estímulo à arte”, acrescenta Maria Dulce. Entre os produtos estão livros, álbuns de gravura, literaturas de cordel, cartões postais e de Natal ilustrados e outros.</p>
<p style="text-align:justify;">Nesse sentido, a entidade participou, em 2002 e 2003, de uma exposição interativa, em comemoração ao centenário de Carlos Drummond de Andrade. No evento, foram apresentados os materiais tipográficos e os trabalhos produzidos na oficina de gravura. Além disso, esteve presente em duas edições da Festa Gentileza, promovida pela Telemig, onde ofereceu aos presentes a oficina de gravura. Outras exposições foram realizadas: <em>Memória Gráfica</em> (2003) por <a href="http://virgulaimagem.redezero.org/">Marcelo Terça-Nada!</a>; e <em>Memória Gráfica &#8211; typographia escola de gravura</em><em>, </em>na Biblioteca Luis de Bessa (2006), que mostrou trabalhos em gravura, cartões e papelaria, todos criados por crianças e adolescentes de baixa renda. A exposição caracterizou-se principalmente pelo cuidado artesanal na confecção do material gráfico: literatura de cordel, livros, álbuns de gravura, cartões postais e de Natal com ilustrações originais. Tudo feito a partir de recursos tipográficos, como clichês, tipos móveis e xilogravura, além de encadernação manual, impressão em <em>hot-stamp</em> e <em>off-set</em>, sempre recuperando a história das artes gráficas e em especial a do impresso. Todo o acabamento e a confecção foram realizados pelas crianças e adolescentes que compõem a mostra.</p>
<p style="text-align:justify;">Em entrevista com Maria Dulce Peixoto Barbosa fomos informados de que o maior parceiro da Associação Memória Gráfica é a Fundação Ayrton Sena. Mas colaboram também a USIMINAS &#8211; Usina Siderúrgica de Minas Gerais; o Centro Cultural da UFMG; o Instituto CREDICARD; e a AMAS &#8211; Associação Municipal de Assistência social, que busca pessoas de outras regionais para trabalharem juntos. A prestação de contas aos parceiros da Associação é feita trimestralmente. Para que isto possa acontecer com garantia e de forma correta, as anotações são feitas diariamente num livro caixa, tudo com profissionalismo, seriedade e compromisso.</p>
<p style="text-align:justify;">Dulce informou que na associação as pessoas trabalham em dois turnos. São feitas visitas em algumas cidades de Minas Gerais, como Ouro Preto, Mariana, São João Del Rei e Tiradentes, para que as crianças e adolescentes conheçam os pontos turísticos e possam fazer seus esboços para futuros desenhos. Quando retornam à associação elas realizam seus trabalhos. São feitos também encontros estaduais e regionais anuais das ONGs para divulgação dos trabalhos, como um Encontro das ONGs em Araxá, onde a discussão foi a alfabetização das crianças e adolescentes. Hospedagem e alimentação são por conta dos parceiros da associação. Algumas padarias de Belo Horizonte, como a Boníssima, doam sobras de pães, bolos, biscoitos e alimentos de boa qualidade para a Associação, que são reaproveitados nas alimentações das crianças e adolescentes. Sua maior felicidade é quando jovens que são recuperados pela associação conseguem se reintegrar à sociedade, como no caso de “Fernando”, que hoje trabalha com tipografia, já tem sua casa e sua moto, fazendo ainda serviços de entrega. Fernando é tão grato à associação que todos os dias antes de ir apara sua residência após o trabalho passa na associação, cumprimenta todos e ajuda a Associação nos seus dias livres como voluntário. É a Memória Gráfica mineira utilizando as artes gráficas como forma de conquista da cidadania, preparando profissionais capacitados e bem treinados para o mercado de trabalho.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>Referências Bibliográficas</strong></p>
<p style="text-align:justify;">AMAS, <a href="http://www.amas.org.br/">http://www.amas.org.br/</a>, acessado em 31/08/2008.</p>
<p style="text-align:justify;">EXPOSIÇÃO MEMÓRIA GRÁFICA, &lt;http://<cite><span style="text-decoration:underline;">virgulaimagem.redezero.org/exposicao-do-memoria-grafica</span></cite><cite><strong>&gt;</strong></cite>, &lt;http:// <cite><span style="text-decoration:underline;"><a href="http://www.cultura.mg.gov.br/">www.cultura.mg.gov.br</a>&gt;</span></cite><cite>, </cite>acessado 31/08/2008. INSTITUTO INSTITUTO AYRTON SENA, <a href="http://senna.globo.com/institutoayrtonsenna/br/default.asp">http://senna.globo.com/institutoayrtonsenna/br/default.asp</a>, acessado em 31/08/2008.</p>
<p style="text-align:justify;">MEMÓRIA GRÁFICA, &lt;<a href="http://www.ajudabrasil.com.br/">http://www.ajudabrasil.com.br/</a>&gt;, acessado em 27/08/2008.</p>
<p style="text-align:justify;">MEMÓRIA GRÁFICA, &lt;http://<cite><a href="http://www.professionalpublish.com.br/docs/74-memoria-grafica.pdf">www.professionalpublish.com.br/docs/74-memoria-grafica.pdf</a>&gt;</cite>, acessado em 31/08/2008.</p>
<p style="text-align:justify;"><strong>© Elza Maria Santos,</strong> <strong>2008.</strong></p>
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		<title>SEGREDOS</title>
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		<pubDate>Sat, 19 Jun 2010 01:09:19 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Luiz Nazario</dc:creator>
				<category><![CDATA[Poesia]]></category>
		<category><![CDATA[Hugo Rondas]]></category>
		<category><![CDATA[Luiz Nazario]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Dulce Peixoto Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[Oswaldo Medeiros]]></category>
		<category><![CDATA[Paulo Henrique Pereira Giordano]]></category>
		<category><![CDATA[Regina Célia de Vasconcelos]]></category>

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		<description><![CDATA[  ♦   Segredos (2000) foi publicado em edição limitada a 500 exemplares, com ilustrações do artista plástico Oswaldo Medeiros &#8211; de saudosa memória -, em páginas impressas uma a uma com fontes tipográficas e encadernação artesanal. Cada exemplar é uma edição única, obra de adolescentes em situação de risco, que aprenderam a arte da [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=meusversos.wordpress.com&amp;blog=14268354&amp;post=15&amp;subd=meusversos&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:center;">
<div id="attachment_24" class="wp-caption aligncenter" style="width: 615px"><a href="http://meusversos.files.wordpress.com/2010/06/quadros-063.jpg" target="_blank"><em><img class="size-full wp-image-24   " title="A formiga de cristal" src="http://meusversos.files.wordpress.com/2010/06/quadros-063.jpg?w=655" alt=""   /></em></a><p class="wp-caption-text">A formiga de cristal. Foto: Hugo Rondas</p></div>
<p style="text-align:justify;"><em> </em></p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:justify;"><em>Segredos</em> (2000) foi publicado em edição limitada a 500 exemplares, com ilustrações do artista plástico Oswaldo Medeiros &#8211; de saudosa memória -, em páginas impressas uma a uma com fontes tipográficas e encadernação artesanal. Cada exemplar é uma edição única, obra de adolescentes em situação de risco, que aprenderam a arte da gravura e da tipografia graças ao projeto <a href="http://meusversos.wordpress.com/2010/06/20/memoria-grafica-%e2%80%93-typografia-escola-de-gravura/" target="_blank">Memória Gráfica &#8211; Typographia Escola de Gravura</a>, que tem a missão de recuperarar a memória gráfica mineira ajudando menores vulnerabilizados a encontrar, através da arte, novo sentido para suas vidas.</p>
<p style="text-align:center;">
<p style="text-align:center;"><em><strong> </strong> </em></p>
<p style="text-align:center;"><strong><em>♦</em></strong></p>
<p style="text-align:center;"><em><strong> </strong> </em></p>
<p style="text-align:center;"><strong>MANIFESTO DOS COGUMELOS GIGANTES</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong> </p>
<p style="text-align:center;">No princípio, tudo era caos e trevas.</p>
<p style="text-align:center;">Com a vida encerrada em castelos,</p>
<p style="text-align:center;">os homens só travavam santas guerras,</p>
<p style="text-align:center;">enquanto as mulheres discutiam</p>
<p style="text-align:center;">quantos anjos de fato poderiam</p>
<p style="text-align:center;">dançar na cabeça d’um alfinete.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Contudo, esse estado de coisas</p>
<p style="text-align:center;">não havia de durar eternamente.</p>
<p style="text-align:center;">Dinamitamos as orientais represas</p>
<p style="text-align:center;">que armazenavam o ouro dos árabes.</p>
<p style="text-align:center;">A luz se derramou sobre as cidades</p>
<p style="text-align:center;">e sobre o ouro assentamos nossa liberdade.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Edificamos palácios e lojas,</p>
<p style="text-align:center;">navegamos em círculos até o Camboja.</p>
<p style="text-align:center;">Descobrimos novos mundos,</p>
<p style="text-align:center;">catequizando povos imundos.</p>
<p style="text-align:center;">Enriquecemos mais e mais</p>
<p style="text-align:center;">fundando impérios coloniais.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">As moedas multiplicadas,</p>
<p style="text-align:center;">em novas empresas lançadas,</p>
<p style="text-align:center;">criavam as riquezas mágicas</p>
<p style="text-align:center;">de nossas indústrias básicas.</p>
<p style="text-align:center;">À nossa glória ao mundo legamos</p>
<p style="text-align:center;">as mais belas criações do gênio humano:</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">testemunhos do poder e do requinte</p>
<p style="text-align:center;">de nossa fantasia sem limites.</p>
<p style="text-align:center;">Despedaçamos sem piedade</p>
<p style="text-align:center;">os nós que atavam a sociedade.</p>
<p style="text-align:center;">E dobramos com esperteza</p>
<p style="text-align:center;">a mais que flexível natureza.</p>
<p style="text-align:center;">   </p>
<p style="text-align:center;">Transformamos médicos, juristas,</p>
<p style="text-align:center;">cientistas, literatos e artistas</p>
<p style="text-align:center;">em dóceis servidores assalariados.</p>
<p style="text-align:center;">E como nada estava escrito no céu,</p>
<p style="text-align:center;">rasgamos o terno véu</p>
<p style="text-align:center;">do sentimentalismo familiar.</p>
<p style="text-align:center;">   </p>
<p style="text-align:center;">Crescemos até as nuvens,</p>
<p style="text-align:center;">levando nossa civilização</p>
<p style="text-align:center;">até os mais altos cumes.</p>
<p style="text-align:center;">E, para calar os queixumes,</p>
<p style="text-align:center;">cravamos bem fundo</p>
<p style="text-align:center;">um capital em cada coração.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Por fim, os joelhos do mundo</p>
<p style="text-align:center;">dobraram aos nossos pés.</p>
<p style="text-align:center;">Ninguém conheceu tanto poder desde Ramsés.</p>
<p style="text-align:center;">Mas foi então que nosso brilho</p>
<p style="text-align:center;">começou a se apagar:</p>
<p style="text-align:center;">nada mais tínhamos a dar!</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E se para seguir vivendo</p>
<p style="text-align:center;">tínhamos de continuar crescendo,</p>
<p style="text-align:center;">essa situação contrafeita,</p>
<p style="text-align:center;">em que a História nos metia,</p>
<p style="text-align:center;">logo tornou suspeita</p>
<p style="text-align:center;">nossa fome de mais-valia.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">As revoltas pipocaram</p>
<p style="text-align:center;">na face lisa das nações.</p>
<p style="text-align:center;">Pressentimos a morte de novo,</p>
<p style="text-align:center;">bicando forte nosso ovo,</p>
<p style="text-align:center;">para espalhar toda a gema,</p>
<p style="text-align:center;">e a clara do sistema, talvez&#8230;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Mas, não, nada tema: um, dois, três,</p>
<p style="text-align:center;">com Smith não há problema!</p>
<p style="text-align:center;">Para desterrar a esperança</p>
<p style="text-align:center;">plantamos cogumelos gigantes,</p>
<p style="text-align:center;">satisfazendo os consumidores</p>
<p style="text-align:center;">nesse antro já sonhado por Dante.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Ah, nem todos os perfumes da Avon</p>
<p style="text-align:center;">poderiam limpar as nossas mãos&#8230;   </p>
<p style="text-align:center;">E ainda que conclamassem:</p>
<p style="text-align:center;">“Cadáveres de todo o mundo, uni-vos!”</p>
<p style="text-align:center;">nenhum morto-vivo tomaria parte</p>
<p style="text-align:center;">nessa desvalida luta de classes.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nossos cogumelos intoxicaram</p>
<p style="text-align:center;">os velhos sujeitos da revolução!</p>
<p style="text-align:center;">A roda infernal foi quebrada&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">E que a humanidade, tão afoita,</p>
<p style="text-align:center;">fique para sempre aleijada, a se arrastar</p>
<p style="text-align:center;">pelos cantos, sem a bela redenção!</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>OS PÁSSAROS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Pelos fios de eletricidade,</p>
<p style="text-align:center;">namoramos pelas cidades,</p>
<p style="text-align:center;">pássaros raros,</p>
<p style="text-align:center;">sem árvores para o pouso.</p>
<p style="text-align:center;">E voamos, percorrendo o mundo,</p>
<p style="text-align:center;">falando todas as línguas,</p>
<p style="text-align:center;">agitando nossas plumagens,</p>
<p style="text-align:center;">Últimos representantes</p>
<p style="text-align:center;">de uma espécie em extinção.</p>
<p style="text-align:center;">Só namoramos,</p>
<p style="text-align:center;">sem poder procriar,</p>
<p style="text-align:center;">porque as árvores</p>
<p style="text-align:center;">em que fazíamos nossos ninhos</p>
<p style="text-align:center;">não existem mais</p>
<p style="text-align:center;">em nenhuma parte.</p>
<p style="text-align:center;">Só nos restaram</p>
<p style="text-align:center;">os fios de eletricidade</p>
<p style="text-align:center;">para nos encontrarmos</p>
<p style="text-align:center;">e cantarmos</p>
<p style="text-align:center;">nosso último canto de amor.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O FIM DA HUMANIDADE</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Quando olhaste de relance para mim,</p>
<p style="text-align:center;">entornando um copo de bebida ruim,</p>
<p style="text-align:center;">e me disseste calmamente</p>
<p style="text-align:center;">que estavas morta há alguns dias,</p>
<p style="text-align:center;">confesso não ter dado a atenção devida.</p>
<p style="text-align:center;">Pensei que estavas só cansada,</p>
<p style="text-align:center;">depois de outra jornada de trabalho.</p>
<p style="text-align:center;">Só mais tarde foi que descobri</p>
<p style="text-align:center;">teu ser a decompor-se no festival dos vermes.</p>
<p style="text-align:center;">E mesmo sóbria assistias, inerme,</p>
<p style="text-align:center;">ao teu próprio banquete.</p>
<p style="text-align:center;">Incrível!</p>
<p style="text-align:center;">Não pude mais ficar contigo.</p>
<p style="text-align:center;">Desculpe, querida,</p>
<p style="text-align:center;">já enterrei muitas mulheres em minha vida.</p>
<p style="text-align:center;">Tu és apenas outro corpo</p>
<p style="text-align:center;">que espera o fim dos dias.</p>
<p style="text-align:center;">Jogarei teus restos no oceano</p>
<p style="text-align:center;">para que os peixes devorem</p>
<p style="text-align:center;">tua carne jovem e teus lindos sonhos.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A FLOR SEM PÉTALAS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Ao perder suas pétalas,</p>
<p style="text-align:center;">a flor permanece flor,</p>
<p style="text-align:center;">em seu cálice,</p>
<p style="text-align:center;">em seu perfume,</p>
<p style="text-align:center;">incompleta e desfeita,</p>
<p style="text-align:center;">imperfeita e sem cor,</p>
<p style="text-align:center;">horrivelmente bela,</p>
<p style="text-align:center;">horrivelmente flor,</p>
<p style="text-align:center;">eternamente saudosa</p>
<p style="text-align:center;">do que foi.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>OLHOS FALSOS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Teus lindos olhos verdes</p>
<p style="text-align:center;">traíram-me de fato!</p>
<p style="text-align:center;">Mas quem diria fossem eles</p>
<p style="text-align:center;">duas lentes coloridas de contato?</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A QUEDA</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nem sei mais desde quando&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Desde sempre?</p>
<p style="text-align:center;">Nem sei bem por quê&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">E já soube?</p>
<p style="text-align:center;">Fui caindo, caindo,</p>
<p style="text-align:center;">como do céu um meteorito,</p>
<p style="text-align:center;">chorando a vida brilhante</p>
<p style="text-align:center;">que levava perto do sol.</p>
<p style="text-align:center;">Hoje, aqui, no chão frio,</p>
<p style="text-align:center;">entre caixas e vidros vazios,</p>
<p style="text-align:center;">coberto de trapos e feridas,</p>
<p style="text-align:center;">deposito toda esperança</p>
<p style="text-align:center;">numa nova lata de lixo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>UM HERÓI</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Na luta contra o crime</p>
<p style="text-align:center;">um policial foi baleado em ação,</p>
<p style="text-align:center;">morrendo três dias depois,</p>
<p style="text-align:center;">no leito de um hospital.</p>
<p style="text-align:center;">Seu retrato foi pendurado</p>
<p style="text-align:center;">na sala de espera</p>
<p style="text-align:center;">de uma das repartições</p>
<p style="text-align:center;">de uma das dependências</p>
<p style="text-align:center;">de uma das seções</p>
<p style="text-align:center;">de um dos setores</p>
<p style="text-align:center;">do Departamento.</p>
<p style="text-align:center;">Seu nome até hoje é lembrado</p>
<p style="text-align:center;">por três velhos parentes</p>
<p style="text-align:center;">e seu fiel companheiro,</p>
<p style="text-align:center;">que nunca se conformou.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>DOCUMENTO ESPECIAL: AS ÚLTIMAS PALAVRAS DO HERÓI </strong></p>
<p style="text-align:justify;"> “Atenção, senhor terrorista! Afirmamos que sua única chance de salvarse é libertando os reféns o mais breve possível. Insistimos que é absolutamente necessário libertar os reféns para entrarmos em negociações. O edifício está cercado. Fugir é impossível, ainda que improvável. Cumpriremos ordens superiores. Atiraremos para matar. Não tente enfrentar nossas forças. Somos oitocentos milhões de policiais armados até os dentes, com metralhadoras, bombas, bazucas, tanques, catapultas, discos voadores, raios gama, água pesada, barulho infernal, Winchesters e desespero. Considere-se um homem morto. Cumpriremos nosso dever. Não tente maltratar os reféns. Não tente correr. Não tente cruzar as pernas. Não tente gritar. Não tente fugir com asas de cera. Não tente inclinar o corpo. Não tente respirar fundo. Não tente pular a cerca. Não tente ficar no escuro. Não tente morrer sozinho. Entregue-se, senhor terrorista!”</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>REFLEXÕES SOBRE A CRISE DO DESEJO</strong></p>
<p style="text-align:justify;"> A mais radical negação do ser não é o nada, porque o nada vem ao mundo pelo ser, como do nada vem o ser ao mundo. A negação mais radical do ser é a pedra, porque é eterna. Insensível, fria, opaca, inteira, confiante, objetiva e idêntica através dos séculos, a pedra resiste ao desejo com toda a força de seu peso. Haverá algo de mais estranho à vida quanto a estátua de pedra que assassina Don Juan? Contudo, um personagem de Samuel Beckett exclama que tem necessidade de barulho, de barulho seco e duro, do barulho das pedras que se chocam, pondo-se a bater, pedra contra pedra, com raiva e força crescentes, as pedras que segura nas mãos: “É isto a vida! Não esta&#8230; sucção!”.</p>
<p style="text-align:justify;">É a consciência da sucção que nos leva ao desejo e à morte. Quando a História obriga o desejo à inflexão, ele se cristaliza numa natureza ambígua, a um tempo dura e translúcida, para conservar sua qualidade essencial enquanto se torna mais resistente que a carne, que não cessa de ser devorada. No diamante revela-se um valor superior da natureza: pequeno e incorruptível, é capaz de cortar lascas e lascas de vidro. Essa imortalidade, que só existe no coração dos homens enquanto recordam os que morreram pelo desejo, é o tesouro frágil que resiste aos Titãs, monolitos destinados a racharem-se nos entrechoques da História. </p>
<p style="text-align:justify;">O símbolo da afirmação do desejo não será, então, o omphalós, o umbigo do mundo, caído do céu em Astéria, ilha flutuante e estéril, único asilo que encontrou a mãe de Apolo, perseguida por Hera, onde pode finalmente dar à luz o deus da juventude imberbe, que nomeará sua terra devastada de Delos, a brilhante (&#8230;único refúgio para a maternidade?). E o símbolo da negação do desejo não será a pedra romana que fechava o mundus, buraco do Palatino pelo qual se chegava ao inferno, impedindo os homens de experimentar com seus próprios órgãos a existência real dos demônios (&#8230;exclusiva prerrogativa paterna?).</p>
<p style="text-align:justify;">Os mitos podem ajudar a razão a sustentar a permanência de uma essência humana generosa, que a História destrói. Mas como sangrar de paixão num mundo desmistificado? Se admitirmos uma nova inflexão do desejo, ele não se ocultará apenas nos valores superiores da natureza, como também nos valores superiores da cultura, que vai ao socorro dos feridos de morte em sua humanidade: mães, crianças, velhos e amantes &#8211; silenciados e difamados pelos adultos, porque aprenderam na carne o seu segredo: o poder é impotente, e as pirâmides que constrói, inúteis e sem valor.</p>
<p style="text-align:justify;">Se cada ser é um rio de sangue, e se cada rio tem seu próprio curso, cada homem tem seu próprio destino. Mas também os rios, se não se os canaliza e os deixa livres, correm naturalmente para o mar. Se querem os homens realizar sua essência humana, não deveriam romper os diques em direção à humanidade? E assim como o mar é suficiente para justificar a existência dos rios, a humanidade seria bastante para despetrificar o mundo, justificando a existência dos homens. O desejo é infinito. Desviado para objetos alheios aos seus fins originais, permanece infinito. Negado historicamente, materializa-se em tudo o que nega a humanidade nos homens. Por isso o desejo não se reprime nem se representa sem catástrofe: é a própria substância do ser, que permanece transparente sob as vestes, carente até a morte.</p>
<p style="text-align:justify;">Desce outra noite no inferno de Eurídice. Enquanto o tempo devora o tempo e o ser desvela o ser, soa a música de Orfeu: movendo florestas e pedras, pacificando as feras do caminho, canta de novo o desejo&#8230;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A FLOR DE PLÁSTICO INCINERADA</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Uma flor ao longe,</p>
<p style="text-align:center;">congelada em seu silêncio.</p>
<p style="text-align:center;">Não cresce em parte alguma,</p>
<p style="text-align:center;">não produz néctar nem brotos:</p>
<p style="text-align:center;">é reproduzida em série,</p>
<p style="text-align:center;">uma igual à outra,</p>
<p style="text-align:center;">aos milhões se for preciso.</p>
<p style="text-align:center;">Nenhuma seiva corre dentro dela.</p>
<p style="text-align:center;">A flor de plástico não pediu para nascer</p>
<p style="text-align:center;">e porisso jaz inerte</p>
<p style="text-align:center;">num tempo que não a afeta.</p>
<p style="text-align:center;">Inocente em sua violência,</p>
<p style="text-align:center;">ela não morre sozinha.</p>
<p style="text-align:center;">É preciso que a desfaçam</p>
<p style="text-align:center;">para que retorne</p>
<p style="text-align:center;">à humanidade que a criou</p>
<p style="text-align:center;">num instante de medo.</p>
<p style="text-align:center;">Quando o planeta desabitado</p>
<p style="text-align:center;">girar vazio no espaço,</p>
<p style="text-align:center;">a flor de plástico continuará</p>
<p style="text-align:center;">intacta e brilhante entre os escombros.</p>
<p style="text-align:center;">Mas, então, de que lhe servirá existir?</p>
<p style="text-align:center;">Não me inquieta na flor de plástico</p>
<p style="text-align:center;">a sua eternidade,</p>
<p style="text-align:center;">mas a cor imaginária</p>
<p style="text-align:center;">das coisas que não têm essência.</p>
<p style="text-align:center;">Liberta das estações,</p>
<p style="text-align:center;">a flor de plástico desafia a natureza</p>
<p style="text-align:center;">porque é uma afirmação do humano</p>
<p style="text-align:center;">que o nega radicalmente.</p>
<p style="text-align:center;">Porisso eu canto a flor de plástico,</p>
<p style="text-align:center;">e canto a sua destruição.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O CORPO SEM OSSOS</strong></p>
<p style="text-align:justify;">Tudo começou no azul e no vermelho. A fumaça entorpecia meus sentidos e fazia-me carne sem ossos, estrutura ausente de identificação: como se o mundo estivesse a ser invadido por máquinas de guerra. Todos contra todos: era a formação pretendida pelo gigantesco cérebro automático. A civilização atingia a fase extrema em que seus membros tornavam-se médiuns do poder invisível, confundido com a água do útero, o leite do peito e o alimento do corpo: regredíamos ao canibalismo, sublimado em diversão. Eu enfrentava, de mãos vazias, esse monstro só ossos que devorava a humanidade. Recoberto de carne, ele iludia suas vítimas com a aparência da vida, fascinando-as à primeira vista. É que se tratava de um falo, excitado e excitante, que só mais tarde revelar-se-ia destruidor.</p>
<p style="text-align:justify;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Caninos de vampiro,</p>
<p style="text-align:center;">garras afiadas, </p>
<p style="text-align:center;">o monstro projeta-se</p>
<p style="text-align:center;">sobre a humanidade.</p>
<p style="text-align:center;">Seu fim é devorar a carne</p>
<p style="text-align:center;">e devolver os ossos.</p>
<p style="text-align:center;">Seu nome é Nuclear.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Caem as últimas folhas.</p>
<p style="text-align:center;">Aranhas tecem suas teias.</p>
<p style="text-align:center;">Uma criança chora ao luar.</p>
<p style="text-align:center;">Um lobo espreita.</p>
<p style="text-align:center;">A mãe precisa trabalhar.</p>
<p style="text-align:center;">É uma das funcionárias</p>
<p style="text-align:center;">daquela usina nuclear.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">pergunte o que fazer.</p>
<p style="text-align:center;">Se não sabe, está perdido.</p>
<p style="text-align:center;">Vampiro vampirizado</p>
<p style="text-align:center;">das pedras e dos ossos.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Artelhos, grupelhos.</p>
<p style="text-align:center;">caveiras, ossinhos,</p>
<p style="text-align:center;">esqueletos, discursos:</p>
<p style="text-align:center;">signos articulados.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Iludidas pelo poder,</p>
<p style="text-align:center;"> as massas morreram.</p>
<p style="text-align:center;">Das cinzas nasceram</p>
<p style="text-align:center;">os homens eternos.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Um vampiro bailava na cidade&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Mas algo o fez secar lentamente:</p>
<p style="text-align:center;">ele bebeu o sangue do diabo</p>
<p style="text-align:center;">que as crianças lhe deram.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Hoje acordei com mais sangue nas veias:</p>
<p style="text-align:center;">sonhei que a vida</p>
<p style="text-align:center;">era mais forte que a morte.</p>
<p style="text-align:center;">E senti a terra tremer.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Falharam as mágicas</p>
<p style="text-align:center;">do repertório sinistro.</p>
<p style="text-align:center;">Caem as cartolas e os ministros.</p>
<p style="text-align:center;">Nascem as estrelas e os profetas.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Todo homem pode ser um santo.</p>
<p style="text-align:center;">A santidade é a humanidade pura.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Arrependeu-se o criminoso</p>
<p style="text-align:center;">ao descobrir</p>
<p style="text-align:center;">que a lei gera o crime.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Renasce a esperança:</p>
<p style="text-align:center;">o Mal desintegra o Mal.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Os últimos dias da barbárie começaram</p>
<p style="text-align:center;">quando os animais igualaram-se a Deus.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦ </p>
<p style="text-align:center;">Da barbárie nascerá uma nova Grécia:</p>
<p style="text-align:center;">a filosofia descerá às ruas</p>
<p style="text-align:center;">para levar o homem ao paraíso.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">A poesia jorra:</p>
<p style="text-align:center;">quebrou-se a pedra escondida.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Quebraram-me os ossos</p>
<p style="text-align:center;">até a felicidade: razão e carne.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Em meu corpo</p>
<p style="text-align:center;">não há lugar para o crime.</p>
<p style="text-align:center;">Está fechado aos vampiros,</p>
<p style="text-align:center;">aberto à luz.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Procura o sonho</p>
<p style="text-align:center;">quem não o vive.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Quando nos conhecemos</p>
<p style="text-align:center;">no pátio da universidade</p>
<p style="text-align:center;">lendo Simone de Beauvoir</p>
<p style="text-align:center;">e Jean-Paul Sartre,</p>
<p style="text-align:center;">ainda não sabíamos</p>
<p style="text-align:center;">que seríamos, um para o outro,</p>
<p style="text-align:center;">como Jean-Paul Sartre</p>
<p style="text-align:center;">e Simone de Beauvoir:</p>
<p style="text-align:center;">jurando amor eterno,</p>
<p style="text-align:center;">espalhando-o pelo mundo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Sem artelhos, ossinhos,</p>
<p style="text-align:center;">caveiras, esqueletos,</p>
<p style="text-align:center;">grupelhos, discursos,</p>
<p style="text-align:center;">usinas, armamentos,</p>
<p style="text-align:center;">Apenas o léxico, o fluxo,</p>
<p style="text-align:center;">o nexo, o plexo e o sexo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nada de lutar para viver:</p>
<p style="text-align:center;">deixar que a vida escorra.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Seremos um corpo sem ossos,</p>
<p style="text-align:center;">dentes, unhas ou articulações:</p>
<p style="text-align:center;">puro molejo, pura delícia.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Quebrar os ossos do corpo,</p>
<p style="text-align:center;">quebrar os ossos do mundo,</p>
<p style="text-align:center;">quebrar os ossos da bomba,</p>
<p style="text-align:center;">quebrar os ossos da morte:</p>
<p style="text-align:center;">viver, viver, viver, viver.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nada de partido, polícia, estado.</p>
<p style="text-align:center;">Apenas homens, frutos e poesia.</p>
<p style="text-align:center;">Nada de pátrias, sonhos e mitos:</p>
<p style="text-align:center;">apenas a vida sagrada.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">No universo sagrado,</p>
<p style="text-align:center;">tudo é fluido e flui</p>
<p style="text-align:center;">num movimento único</p>
<p style="text-align:center;">de gozo e terror.</p>
<p style="text-align:center;">Entre o Ser e o Nada,</p>
<p style="text-align:center;">a vida se transforma</p>
<p style="text-align:center;">num anjo vingador.</p>
<p style="text-align:center;">As feras amansam</p>
<p style="text-align:center;">quando ele passa.</p>
<p style="text-align:center;">As mulheres põem-se</p>
<p style="text-align:center;">sob suas asas.</p>
<p style="text-align:center;">As crianças o acolhem</p>
<p style="text-align:center;">como um super-herói.</p>
<p style="text-align:center;">Mas os homens pensam:</p>
<p style="text-align:center;">“Tudo é relativo”,</p>
<p style="text-align:center;">e, quando o anjo volta as costas,</p>
<p style="text-align:center;">abraçam a morte.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Amortecer a catástrofe com amor:</p>
<p style="text-align:center;">o amor universal dos amantes,</p>
<p style="text-align:center;">o amor que sangra sobre nós,</p>
<p style="text-align:center;">o amor puro e verdadeiro,</p>
<p style="text-align:center;">o amor sem meios,</p>
<p style="text-align:center;">o amor difamado,</p>
<p style="text-align:center;">o amor liberto,</p>
<p style="text-align:center;">o amor amor.</p>
<p style="text-align:center;">E com o amor tecer o infinito Ser.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Bastam poucas aventuras</p>
<p style="text-align:center;">para colorir a Terra.</p>
<p style="text-align:center;">Com apenas dois homens</p>
<p style="text-align:center;">pode haver um diálogo.</p>
<p style="text-align:center;">Mas são precisos seis bilhões</p>
<p style="text-align:center;">para existir a humanidade.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Não nos querem radicais.</p>
<p style="text-align:center;">Mas sem raízes secamos.</p>
<p style="text-align:center;">Ser radical é ser humano:</p>
<p style="text-align:center;">colher os frutos das árvores</p>
<p style="text-align:center;">sem arrancar suas raízes;</p>
<p style="text-align:center;">colher os frutos dos homens</p>
<p style="text-align:center;">sem tolher suas liberdades.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;">Amigo: seja também meu inimigo,</p>
<p style="text-align:center;">para que possamos viver juntos</p>
<p style="text-align:center;">a existência inteira.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">A máscara disfarça o medo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>♦</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong> </p>
<p style="text-align:center;">Quiseram convencer-nos</p>
<p style="text-align:center;">de que éramos maus,</p>
<p style="text-align:center;">de uma natureza perversa.</p>
<p style="text-align:center;">Que nossos desejos mais puros</p>
<p style="text-align:center;">eram maquinações do inimigo.</p>
<p style="text-align:center;">Mas a liberdade revelou-se</p>
<p style="text-align:center;">tão infinita quanto o poder.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Não falo aos idiotizados pelos meios,</p>
<p style="text-align:center;">mas aos pacificados pelos fins.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Não quero o osso,</p>
<p style="text-align:center;">mas a carne.</p>
<p style="text-align:center;">Não quero a imagem,</p>
<p style="text-align:center;">mas a coisa.</p>
<p style="text-align:center;">Não quero a massa,</p>
<p style="text-align:center;">mas o ser.</p>
<p style="text-align:center;">Não quero os meios,</p>
<p style="text-align:center;">mas os fins.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">O gesto mimético,</p>
<p style="text-align:center;">o verbo automático,</p>
<p style="text-align:center;">o revide reflexo,</p>
<p style="text-align:center;">o beijo em anexo:</p>
<p style="text-align:center;">tudo me agride.</p>
<p style="text-align:center;">Nada me ilude:</p>
<p style="text-align:center;">nem a cibernética,</p>
<p style="text-align:center;">nem a informática,</p>
<p style="text-align:center;">nem a telemática.</p>
<p style="text-align:center;">Sou apenas carne:</p>
<p style="text-align:center;">estética, ética, erótica.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;">O homem não nasce vazio,</p>
<p style="text-align:center;">para que metam dentro dele</p>
<p style="text-align:center;">valores estabelecidos.</p>
<p style="text-align:center;">O homem nasce completo</p>
<p style="text-align:center;">e apenas, com o tempo,</p>
<p style="text-align:center;">vai se descobrindo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Toda minha vida passei a pão e água,</p>
<p style="text-align:center;">todos esses anos -</p>
<p style="text-align:center;">esmagado pelo desejo,</p>
<p style="text-align:center;">querendo que todas as carências</p>
<p style="text-align:center;">me invadissem</p>
<p style="text-align:center;">para que eu pudesse dar ao mundo</p>
<p style="text-align:center;">a palavra divina.</p>
<p style="text-align:center;">Eu era o refém da morte.</p>
<p style="text-align:center;">Mas, no último momento,</p>
<p style="text-align:center;">a morte fugiu de si própria:</p>
<p style="text-align:center;">era vida retorcida.</p>
<p style="text-align:center;">E se ela agora quer</p>
<p style="text-align:center;">sugar-me mais um pouco,</p>
<p style="text-align:center;">agora já não dou</p>
<p style="text-align:center;">mais meu sangue a ninguém.</p>
<p style="text-align:center;">Longa demais foi a opressão,</p>
<p style="text-align:center;">e desta vez tive tempo</p>
<p style="text-align:center;">de aprender seus mecanismos.</p>
<p style="text-align:center;">Se estamos às vésperas</p>
<p style="text-align:center;">do cataclismo,</p>
<p style="text-align:center;">do choque,</p>
<p style="text-align:center;">do perigo extremo,</p>
<p style="text-align:center;">sob a custódia</p>
<p style="text-align:center;">de potências infernais,</p>
<p style="text-align:center;">iguais em tudo,</p>
<p style="text-align:center;">o limite, o limite chegou.</p>
<p style="text-align:center;">Chegamos ao fim da porcaria.</p>
<p style="text-align:center;">A cultura revelou-se carne,</p>
<p style="text-align:center;">apenas carne.</p>
<p style="text-align:center;">Sim, não há ossos em meu corpo.</p>
<p style="text-align:center;">Verifiquei ontem à noite,</p>
<p style="text-align:center;">e não encontrei nenhum.</p>
<p style="text-align:center;">Desossado eis-me entregue</p>
<p style="text-align:center;">ao infinito</p>
<p style="text-align:center;">de outro infinito</p>
<p style="text-align:center;">tão desossado quanto eu.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Caem nossas últimas lágrimas.</p>
<p style="text-align:center;">Últimas porque as queremos últimas.</p>
<p style="text-align:center;">Talvez nos arrebente uma bomba atômica.</p>
<p style="text-align:center;">Talvez um punhal penetre nossa carne virgem.</p>
<p style="text-align:center;">Ainda assim revela-se a natureza</p>
<p style="text-align:center;">em sua perfeita ambigüidade.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Ser o que se desejar ser.</p>
<p style="text-align:center;">Viver a vida sem meios.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Sem relação:</p>
<p style="text-align:center;">a vida no estado puro.</p>
<p style="text-align:center;">Contra a morte da relação</p>
<p style="text-align:center;">no estado puro.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E quando tudo acabar,</p>
<p style="text-align:center;">iremos abrir nossas almas</p>
<p style="text-align:center;">para que nossos corpos</p>
<p style="text-align:center;">possam amar sem remorsos.</p>
<p style="text-align:center;">Transformaremos nossas vidas</p>
<p style="text-align:center;">em obras de arte e de amor.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">É sagrado o seio</p>
<p style="text-align:center;">que a mãe dá ao filho.</p>
<p style="text-align:center;">É sagrado o pranto</p>
<p style="text-align:center;">de quem vê e não fala.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nosso corpo será intocável:</p>
<p style="text-align:center;">foi só o que restou da vida,</p>
<p style="text-align:center;">e a vida é sagrada.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Construiremos o corpo sem ossos</p>
<p style="text-align:center;">sobre as ruínas desta terra devastada.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A ORQUESTRA MINÚSCULA</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong> </p>
<p style="text-align:center;">Num cantinho encantado do mundo</p>
<p style="text-align:center;">existe uma orquestra minúscula.</p>
<p style="text-align:center;">Cada um de seus instrumentos</p>
<p style="text-align:center;">não é maior que um dedal.</p>
<p style="text-align:center;">Os músicos dessa orquestra</p>
<p style="text-align:center;">são homúnculos muito tímidos,</p>
<p style="text-align:center;">que passam uma eternidade</p>
<p style="text-align:center;">afinando seus instrumentos.</p>
<p style="text-align:center;">A orquestra minúscula</p>
<p style="text-align:center;">é uma sensação, um prodígio,</p>
<p style="text-align:center;">mas raramente se apresenta.</p>
<p style="text-align:center;">E não se pode contratá-la:</p>
<p style="text-align:center;">ela não tem empresários,</p>
<p style="text-align:center;">nem se exibe em teatros.</p>
<p style="text-align:center;">A orquestra minúscula</p>
<p style="text-align:center;">só irrompe em momentos mágicos.</p>
<p style="text-align:center;">Ela toca para os que agonizam,</p>
<p style="text-align:center;">depois de uma vida plena;</p>
<p style="text-align:center;">para os amantes que se encontram, </p>
<p style="text-align:center;">depois de uma busca infinita;</p>
<p style="text-align:center;">para as crianças perdidas,</p>
<p style="text-align:center;">e os gênios desesperados.</p>
<p style="text-align:center;">A orquestra minúscula</p>
<p style="text-align:center;">toca para poucos.</p>
<p style="text-align:center;">Sua música maravilhosa é abafada</p>
<p style="text-align:center;">pelo burburinho do mundo,</p>
<p style="text-align:center;">mas os que a ouvem são transportados</p>
<p style="text-align:center;">para uma outra realidade.</p>
<p style="text-align:center;">Eu ouvi a orquestra minúscula.</p>
<p style="text-align:center;">Estava tão triste, tão triste&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Foi quando escutei a melodia.</p>
<p style="text-align:center;">Tomei depressa de uma lupa</p>
<p style="text-align:center;">e vi os músicos pequeninos</p>
<p style="text-align:center;">em seus fraques brancos</p>
<p style="text-align:center;">afinando seus instrumentos,</p>
<p style="text-align:center;">esperando, nervosos,</p>
<p style="text-align:center;">que eu parasse de chorar,</p>
<p style="text-align:center;">e fizesse silêncio absoluto.</p>
<p style="text-align:center;">Enfim, o milimétrico maestro</p>
<p style="text-align:center;">dançou no ar com a batuta.</p>
<p style="text-align:center;">Que beleza, que encanto,</p>
<p style="text-align:center;">todos vestidos de gala,</p>
<p style="text-align:center;">tocando-me suas partituras</p>
<p style="text-align:center;">tão únicas, tão ensaiadas.</p>
<p style="text-align:center;">Os instrumentos miniaturas</p>
<p style="text-align:center;">reluziam como pequenas jóias.</p>
<p style="text-align:center;">Sons delicados e suaves</p>
<p style="text-align:center;">inundaram-me de alegrias,</p>
<p style="text-align:center;">elevando-me para além de toda dor</p>
<p style="text-align:center;">e de toda expectativa.</p>
<p style="text-align:center;">A musiquinha tornou-me mais puro,</p>
<p style="text-align:center;">como todos aqueles que sonham.</p>
<p style="text-align:center;">Desde então, vivo a esperar</p>
<p style="text-align:center;">por uma nova audição.</p>
<p style="text-align:center;">A orquestra minúscula gosta de tocar</p>
<p style="text-align:center;">para os que são absolutamente sós.</p>
<p style="text-align:center;">E que grande prazer ouvi-la,</p>
<p style="text-align:center;">depois de suportar o insuportável.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O TEMPO E A MORTE</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong> </p>
<p style="text-align:center;">Diz o Tempo à sua irmã:</p>
<p style="text-align:center;">“Sou poderoso, maninha:</p>
<p style="text-align:center;">carrego nos meus ombros</p>
<p style="text-align:center;">toda a História do mundo!”</p>
<p style="text-align:center;">Responde-lhe a fria Morte:</p>
<p style="text-align:center;">“Enquanto isso despedaço</p>
<p style="text-align:center;">todos os sonhos dos homens.</p>
<p style="text-align:center;">Eu é que sou mais forte!”</p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O EUNUCO</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Meu desejo</p>
<p style="text-align:center;">é um rio seco</p>
<p style="text-align:center;">que não pára</p>
<p style="text-align:center;">de correr.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>VAZIO</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nas minhas noites brancas</p>
<p style="text-align:center;">ou nos meus dias brilhantes</p>
<p style="text-align:center;">é tua ausência quem rouba</p>
<p style="text-align:center;">o sentido de cada instante.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A LINHA RETA</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Do primeiro erro trágico</p>
<p style="text-align:center;">todos os outros nasceram,</p>
<p style="text-align:center;">numa progressão contínua,</p>
<p style="text-align:center;">rapidamente acumulada,</p>
<p style="text-align:center;">de catástrofes sucessivas,</p>
<p style="text-align:center;">só encerradas no inevitável</p>
<p style="text-align:center;">e mais amargo sucedâneo</p>
<p style="text-align:center;">de tamanha inconseqüência.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"> ♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>PARAÍSO EM CHAMAS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Há um paraíso perdido</p>
<p style="text-align:center;">nas almas mais mesquinhas,</p>
<p style="text-align:center;">uma pequena chama de amor</p>
<p style="text-align:center;">nos corpos mais viciosos,</p>
<p style="text-align:center;">um brilho frágil que sustenta</p>
<p style="text-align:center;">toda a miséria do mundo.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"> ♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>MISTÉRIOS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Foi por fim vencida</p>
<p style="text-align:center;">a Invencível Armada Espanhola</p>
<p style="text-align:center;">Já na sua primeira viagem</p>
<p style="text-align:center;">o inafundável Titanic afundou.</p>
<p style="text-align:center;">Mas, quando lançado no ar,</p>
<p style="text-align:center;">um gato sempre cai de pé.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>ENTRETENIMENTO</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Que desperdício fixar,</p>
<p style="text-align:center;">derrubando florestas,</p>
<p style="text-align:center;">tantos sorrisos e gestos</p>
<p style="text-align:center;">de estúpidas carcaças!</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>WEIMAR, 1991</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Eu vi a morte em Buchenwald,</p>
<p style="text-align:center;">em pedras negras como cicatrizes,</p>
<p style="text-align:center;">e na árvore decepada de Goethe,</p>
<p style="text-align:center;">sem tronco, galhos ou raízes.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>AS RUAS DE ROMA</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Não há uma única rua de Roma</p>
<p style="text-align:center;">que não me desperte a lembrança</p>
<p style="text-align:center;">de tê-la um dia percorrido. Pois certa tarde,</p>
<p style="text-align:center;">enquanto eu caminhava pela Via dei Greci,</p>
<p style="text-align:center;">minha alma saiu de meu corpo</p>
<p style="text-align:center;">e sobrevoou todo o Corso,</p>
<p style="text-align:center;">da Via del Gambero à Piazza del Poppolo,</p>
<p style="text-align:center;">abraçando todas as paralelas e transversais.</p>
<p style="text-align:center;">Se a nenhum homem é dado</p>
<p style="text-align:center;">conhecer Roma por completo</p>
<p style="text-align:center;">minha alma, pondo-se a vagar</p>
<p style="text-align:center;">naquele labirinto de pedras,</p>
<p style="text-align:center;">retornou ao meu corpo tão feliz</p>
<p style="text-align:center;">como nenhum homem jamais o foi ou será</p>
<p style="text-align:center;">por não poder, na sua breve existência,</p>
<p style="text-align:center;">ter Roma inteira em seus braços.</p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>AS IDADES DE ROMA </strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Roma acolhe, maternal, toda a confusão do mundo:</p>
<p style="text-align:center;">templos pagãos transformados em igrejas católicas;</p>
<p style="text-align:center;">termas sórdidas convertidas em sóbrios conventos;</p>
<p style="text-align:center;">colunas dóricas fundidas no arcabouço de palácios;</p>
<p style="text-align:center;">vilas populares brotando das ruínas dos anfiteatros;</p>
<p style="text-align:center;">catacumbas repovoadas por turistas em caravanas&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">E enquanto os vivos se amontoam sobre os mortos,</p>
<p style="text-align:center;">silenciosamente pulsa um imenso coração de pedra.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>A QUEDA DE ROMA</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Por sete noites caminhei</p>
<p style="text-align:center;">ao longo das muralhas de Roma,</p>
<p style="text-align:center;">como um lobo à espreita da caça,</p>
<p style="text-align:center;">um selvagem faminto de História,</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">imaginando quantos prazeres e dores</p>
<p style="text-align:center;">aqueles muros suportaram calados,</p>
<p style="text-align:center;">quantas vidas limaram suas pedras</p>
<p style="text-align:center;">com segredos nunca mais revelados.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Súbito, uma trepidação medonha</p>
<p style="text-align:center;">arrancou os romanos da sesta.</p>
<p style="text-align:center;">Até os satélites registraram</p>
<p style="text-align:center;">o turbilhão das ruínas em pó. </p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Quem destruiu as muralhas de Roma?</p>
<p style="text-align:center;">Não culpem os bárbaros nem os Barberinis.</p>
<p style="text-align:center;">Eu vi: foram os Fiats e os Ferraris.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>AS RUÍNAS DE KARNACK</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Para as ruínas de Karnack,</p>
<p style="text-align:center;">onde templos se ergueram</p>
<p style="text-align:center;">às longas margens do Nilo,</p>
<p style="text-align:center;">antes de cair em pedaços,</p>
<p style="text-align:center;">no ar brilhante e seco,</p>
<p style="text-align:center;">tão cheio de mosquitos&#8230;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Para as ruínas de Karnack,</p>
<p style="text-align:center;">onde há quarenta séculos</p>
<p style="text-align:center;">deuses mugiam ferozes</p>
<p style="text-align:center;">estremecendo pirâmides</p>
<p style="text-align:center;">e abrindo rios de sangue</p>
<p style="text-align:center;">como miragens no horizonte&#8230;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Para as ruínas de Karnack</p>
<p style="text-align:center;">zarpamos em caravanas,</p>
<p style="text-align:center;">destemidos e equipados</p>
<p style="text-align:center;">para tirar o sono dos deuses</p>
<p style="text-align:center;">com os relâmpagos disparados</p>
<p style="text-align:center;">por nossas câmaras Kodak.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>LAMENTO</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Perdemo-nos de vista</p>
<p style="text-align:center;">nos últimos dez anos&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Que triste reencontro!</p>
<p style="text-align:center;">O tempo soprou</p>
<p style="text-align:center;">um a um seus cabelos,</p>
<p style="text-align:center;">agora ralos fios</p>
<p style="text-align:center;">prateados e sem viço.</p>
<p style="text-align:center;">Os olhos, outrora vivos,</p>
<p style="text-align:center;">agora encovados nas órbitas!</p>
<p style="text-align:center;">E o porte tão esguio</p>
<p style="text-align:center;">de seu corpo esbelto,</p>
<p style="text-align:center;">esvaziou-se lentamente</p>
<p style="text-align:center;">como um balão de ar.</p>
<p style="text-align:center;">Como o tempo é cruel,</p>
<p style="text-align:center;">fiquei a lamentar</p>
<p style="text-align:center;">depois que ele se foi,</p>
<p style="text-align:center;">sabendo que de mim</p>
<p style="text-align:center;">ele levava exatamente</p>
<p style="text-align:center;">a mesma impressão.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O SONHO DO HOMEM</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">O homem sonhava.</p>
<p style="text-align:center;">Foi obrigado a guerrear</p>
<p style="text-align:center;">até transformar-se em herói.</p>
<p style="text-align:center;">O homem sonhava.</p>
<p style="text-align:center;">Foi obrigado a trabalhar</p>
<p style="text-align:center;">até transformar-se em herói.</p>
<p style="text-align:center;">O homem sonhava.</p>
<p style="text-align:center;">Foi obrigado a amar</p>
<p style="text-align:center;">até transformar-se em herói.</p>
<p style="text-align:center;">O homem sonhava.</p>
<p style="text-align:center;">Foi obrigado a sonhar</p>
<p style="text-align:center;">até transformar-se em herói.</p>
<p style="text-align:center;">O homem sonhava.</p>
<p style="text-align:center;">Seu sonho não tinha fim&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">Que era isso? Que era?</p>
<p style="text-align:center;">Que doença essa sem cura?</p>
<p style="text-align:center;">Guerra, trabalho, amor e sonho:</p>
<p style="text-align:center;">o homem já fora obrigado a tudo &#8211; e continuava a sonhar! Cansado,</p>
<p style="text-align:center;">o homem livrou-se do herói e realizou seu sonho.</p>
<p style="text-align:center;">E essa é a história da humanidade.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>POESIA DAS COISAS NATURAIS</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">A pedra pulsa,</p>
<p style="text-align:center;">como viva, nas mãos de</p>
<p style="text-align:center;">de Fabrício Fernandino.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">O artista propõe</p>
<p style="text-align:center;">à informe natureza</p>
<p style="text-align:center;">sua sensível disciplina.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E os blocos, em lascas,</p>
<p style="text-align:center;">logo recordarão</p>
<p style="text-align:center;">as inscrições de Nazca.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Lendo versos no universo,</p>
<p style="text-align:center;">faz aflorar o espírito</p>
<p style="text-align:center;">sobre a matéria bruta,</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">esculpindo o silêncio,</p>
<p style="text-align:center;">subitamente petrificado,</p>
<p style="text-align:center;">em sutis saliências.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E o ser passa a ser,</p>
<p style="text-align:center;">pelo artista contemplativo,</p>
<p style="text-align:center;">delicadamente modelado.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Nas trilhas do coração</p>
<p style="text-align:center;">a mão transforma a matéria</p>
<p style="text-align:center;">em seu próprio sonho.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E não cessa de procurar,</p>
<p style="text-align:center;">na superfície esfolada,</p>
<p style="text-align:center;">a essência intangível.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Contra o não da matéria</p>
<p style="text-align:center;">a mão imprime, certeira,</p>
<p style="text-align:center;">sua vontade primeva.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E não se faz de rogada,</p>
<p style="text-align:center;">pois a mão, machucada,</p>
<p style="text-align:center;">só é feliz quando faz.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Almejando o silêncio,</p>
<p style="text-align:center;">o artista se cala. Mas a mão</p>
<p style="text-align:center;">não pára, e luta para alcançar</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">o silêncio que emana</p>
<p style="text-align:center;">do gesto ao sufocar</p>
<p style="text-align:center;">sua expressão derradeira.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Cala-se enfim o pensamento,</p>
<p style="text-align:center;">concentrado na forma</p>
<p style="text-align:center;">que busca a perfeição.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E quando atinge a meta</p>
<p style="text-align:center;">da pura contemplação</p>
<p style="text-align:center;">a obra fala por si.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Desejaria o artista modelar</p>
<p style="text-align:center;">a vida inteira,</p>
<p style="text-align:center;">como um bloco sem fim?</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Mas por quê? Para quem?</p>
<p style="text-align:center;">Para quê? E o quê?,</p>
<p style="text-align:center;">paralisam as dúvidas.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Entre os pontos</p>
<p style="text-align:center;">de interrogação,</p>
<p style="text-align:center;">somente o labor</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">traz a resposta:</p>
<p style="text-align:center;">o prazer de criar</p>
<p style="text-align:center;">justifica o criador.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">E ele celebra na forma</p>
<p style="text-align:center;">da natureza humanizada</p>
<p style="text-align:center;">toda a grandeza da vida.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Suas obras recordam</p>
<p style="text-align:center;">menires, megálitos e pirâmides,</p>
<p style="text-align:center;">essas fontes de energia;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">evocam o Fujiama, o Tabor,</p>
<p style="text-align:center;"> o Olimpo, o Sinai</p>
<p style="text-align:center;">e outras montanhas mágicas;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">inspiram-se nas águas sagradas</p>
<p style="text-align:center;">do Tigre, do Eufrates, do Ganges,</p>
<p style="text-align:center;">do Nilo e do Amazonas;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">procuram por florestas e bosques,</p>
<p style="text-align:center;">figueiras e sicômeros,</p>
<p style="text-align:center;">pela vegetação santificada;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">apelam aos astros e aos elementos,</p>
<p style="text-align:center;">ao animal e ao homem,</p>
<p style="text-align:center;">a todas as coisas sagradas;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">sonham dançar com gigantes,</p>
<p style="text-align:center;">sob a noite estrelada,</p>
<p style="text-align:center;">no altar de Stonehenge;</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">e convocam rabdomantes</p>
<p style="text-align:center;">para captarem em transes</p>
<p style="text-align:center;">as emanações cósmicas.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Se a estranha face da Terra</p>
<p style="text-align:center;">é um livro escrito por Deus,</p>
<p style="text-align:center;">com seu alfabeto de pedras,</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">o escultor decifrou a mensagem:</p>
<p style="text-align:center;">ora prazer, ora dor, ora sim, ora não,</p>
<p style="text-align:center;">a vida não é pedra, é mutação.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">♦</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>AS RUÍNAS DA MODERNIDADE</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>Terror</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Este é o tempo dos terroristas sem causa:</p>
<p style="text-align:center;">o Fanático, com um míssil portátil;</p>
<p style="text-align:center;">o Cientista, com seu tubo de vírus;</p>
<p style="text-align:center;">o Guru, com ampolas de sarín&#8230;</p>
<p style="text-align:center;">lançam um ultimatum à modernidade.</p>
<p style="text-align:center;">Mesmo o Império é impotente</p>
<p style="text-align:center;">frente ao terrorismo de massa.</p>
<p style="text-align:center;">O Anônimo só precisa</p>
<p style="text-align:center;">acessar na Internet</p>
<p style="text-align:center;">o sítio das bombas caseiras.</p>
<p style="text-align:center;">Depois da catástrofe,</p>
<p style="text-align:center;">a Sky Television, a ABC,</p>
<p style="text-align:center;">a BBC, a CNN, a NBC</p>
<p style="text-align:center;">e outros 500 canais a cabo</p>
<p style="text-align:center;">darão ao Anônimo</p>
<p style="text-align:center;">seus quinze minutos de fama.</p>
<p style="text-align:center;">Todos saberão o que ele fez.</p>
<p style="text-align:center;">E se alguém ainda não sabe</p>
<p style="text-align:center;">o que está por trás da explosão,</p>
<p style="text-align:center;">a resposta é um mal sem cura:</p>
<p style="text-align:center;">o Anônimo não mata por gosto,</p>
<p style="text-align:center;">mas para deixar o anonimato</p>
<p style="text-align:center;">de uma maneira rápida e segura.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Os Meios</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Os meios do novo terror</p>
<p style="text-align:center;">tornaram-se sofisticados:</p>
<p style="text-align:center;">molotovs, bombas, fuzis,</p>
<p style="text-align:center;">já são armas do passado.</p>
<p style="text-align:center;">O novo terrorista dispõe</p>
<p style="text-align:center;">de mísseis, foguetes, radares,</p>
<p style="text-align:center;">vírus para os computadores</p>
<p style="text-align:center;">gases e isótopos irradiados,</p>
<p style="text-align:center;">culturas de germes fatídicos,</p>
<p style="text-align:center;">armas suaves e penetrantes</p>
<p style="text-align:center;">adequadas à meta ambiciosa</p>
<p style="text-align:center;">de uma matança sem discriminação</p>
<p style="text-align:center;">de idade, sexo, classe,</p>
<p style="text-align:center;">etnia, cor, religião.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Os Fins</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">O Anônimo não luta mais</p>
<p style="text-align:center;">por uma “causa”, nenhuma:</p>
<p style="text-align:center;">a liberdade individual,</p>
<p style="text-align:center;">a justiça universal,</p>
<p style="text-align:center;">a democracia popular,</p>
<p style="text-align:center;">a independência nacional,</p>
<p style="text-align:center;">não lhe servem de utopia.</p>
<p style="text-align:center;">A grande meta política</p>
<p style="text-align:center;">que o Anônimo visa</p>
<p style="text-align:center;">é a divulgação do atentado:</p>
<p style="text-align:center;">as ruínas multicoloridas</p>
<p style="text-align:center;">estampadas nos jornais e revistas,</p>
<p style="text-align:center;">o grande número de mortos e feridos</p>
<p style="text-align:center;">nas transmissões ao vivo</p>
<p style="text-align:center;">são os mais altos fins perseguidos</p>
<p style="text-align:center;">pelo terrorista atualizado.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Os Membros</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Os membros do terror organizado</p>
<p style="text-align:center;">são treinados para suprimir</p>
<p style="text-align:center;">suas emoções pessoais.</p>
<p style="text-align:center;">Se crescem odiando seus pais,</p>
<p style="text-align:center;">mestres, e sobretudo a si mesmos,</p>
<p style="text-align:center;">são àqueles outros, os inimigos,</p>
<p style="text-align:center;">que não pertencem ao círculo íntimo</p>
<p style="text-align:center;">de seus ódios familiares,</p>
<p style="text-align:center;">que dedicam um ódio sem ódio,</p>
<p style="text-align:center;">vazio de sentimento,</p>
<p style="text-align:center;">mas tão constante e sistemático,</p>
<p style="text-align:center;">que corta como navalha.</p>
<p style="text-align:center;">E como os impuros merecem morrer,</p>
<p style="text-align:center;">trucidam-nos como se fossem</p>
<p style="text-align:center;">espantalhos feitos de palha.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>As Vítimas</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Os alvos do novo terror</p>
<p style="text-align:center;">não são mais as grandes figuras</p>
<p style="text-align:center;">da autoridade e do poder.</p>
<p style="text-align:center;">Os ministros seqüestrados</p>
<p style="text-align:center;">e os embaixadores em festa</p>
<p style="text-align:center;">são as vítimas bissextas</p>
<p style="text-align:center;">de um terror ultrapassado.</p>
<p style="text-align:center;">As baixas do novo terror</p>
<p style="text-align:center;">são soldados, funcionários,</p>
<p style="text-align:center;">consumidores, comerciários,</p>
<p style="text-align:center;">pedestres na rua, no metrô,</p>
<p style="text-align:center;">crianças na creche e na escola.</p>
<p style="text-align:center;">O Anônimo almeja criar,</p>
<p style="text-align:center;">no Estado democrático,</p>
<p style="text-align:center;">um estado de estupor,</p>
<p style="text-align:center;">um Estado a dominar:</p>
<p style="text-align:center;">um estado de terror.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>O Anônimo</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Mas quem será o Anônimo?</p>
<p style="text-align:center;">Um membro do ETA, do IRA, do GIA,</p>
<p style="text-align:center;">do Hamas, do Hezbollah,</p>
<p style="text-align:center;">das Milícias de Michigan,</p>
<p style="text-align:center;">ou até da velha Ku Klux Klan.</p>
<p style="text-align:center;">Um franco-atirador solitário,</p>
<p style="text-align:center;">Unabomber, hacker, serial-killer,</p>
<p style="text-align:center;">guru de seita fanática,</p>
<p style="text-align:center;">homem-bomba, anjo exterminador.</p>
<p style="text-align:center;">Um membro da massa anônima,</p>
<p style="text-align:center;">um homem da multidão,</p>
<p style="text-align:center;">sem rosto nem importância,</p>
<p style="text-align:center;">só lembrado por um rastro</p>
<p style="text-align:center;">e um oco, de sangue e destruição.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Ruínas</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Com o que se parecem os prédios</p>
<p style="text-align:center;">depois de um atentado moderno?</p>
<p style="text-align:center;">Com cenários de teatro,</p>
<p style="text-align:center;">com casinhas de bonecas.</p>
<p style="text-align:center;">É assim que os novos terroristas</p>
<p style="text-align:center;">imaginam seus próprios alvos,</p>
<p style="text-align:center;">destroçando pessoas vivas</p>
<p style="text-align:center;">como se fossem de brinquedo.</p>
<p style="text-align:center;">Na mente do terrorista atualizado,</p>
<p style="text-align:center;">a fantasia não é uma dimensão</p>
<p style="text-align:center;">separada do real: tudo lá se fundiu,</p>
<p style="text-align:center;">e mata-se também por diversão.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Modernidade</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">A modernidade criou</p>
<p style="text-align:center;">seus próprios destruidores:</p>
<p style="text-align:center;">o corpo a corpo é passado;</p>
<p style="text-align:center;">o mundo se automatizou:</p>
<p style="text-align:center;">o artesanato gerou a indústria,</p>
<p style="text-align:center;">que gerou a eletrônica,</p>
<p style="text-align:center;">e a robótica, que tornou as massas</p>
<p style="text-align:center;">tão completamente supérfluas</p>
<p style="text-align:center;">que se pode exterminar sem cerimônia.</p>
<p style="text-align:center;">Assim, a morte agora vem em massa:</p>
<p style="text-align:center;">não se morre mais só, um por um,</p>
<p style="text-align:center;">mas aos montes, coletivamente,</p>
<p style="text-align:center;">e mesmo estranhos voam juntos,</p>
<p style="text-align:center;">em pedaços, até a vala comum.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Prevenções</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Percebemos melhor o caráter totalitário</p>
<p style="text-align:center;">do novo terror nas medidas preventivas</p>
<p style="text-align:center;">que os Estados tomam para a sua segurança.</p>
<p style="text-align:center;">Tempos atrás, a Prefeitura de Paris fez lacrar</p>
<p style="text-align:center;">todas as latas de lixo da cidade &#8211; todas:</p>
<p style="text-align:center;">para que o Anônimo não pudesse mais</p>
<p style="text-align:center;">esconder ali seus explosivos caseiros.</p>
<p style="text-align:center;">Os grandes aeroportos fizeram instalar</p>
<p style="text-align:center;">máquinas de radiografar passageiros,</p>
<p style="text-align:center;">para expor não apenas seus pertences,</p>
<p style="text-align:center;">como também seus ossos e genitais.</p>
<p style="text-align:center;">Escutas telefônicas nas linhas particulares,</p>
<p style="text-align:center;">rastreamento de mensagens eletrônicas,</p>
<p style="text-align:center;">câmeras monitorando-nos em toda parte:</p>
<p style="text-align:center;">a sua segurança exige o fim da privacidade</p>
<p style="text-align:center;">nos Estado ameaçados, que a todos controlam.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>Esperança</strong></p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;">Assim, é preciso continuar vivendo</p>
<p style="text-align:center;">como se nada estivesse acontecendo,</p>
<p style="text-align:center;">como se fosse impossível que,</p>
<p style="text-align:center;">a qualquer momento,</p>
<p style="text-align:center;">voássemos pelos ares,</p>
<p style="text-align:center;">o pulmão inflado de gás,</p>
<p style="text-align:center;">o sangue contaminado</p>
<p style="text-align:center;">por uma nova peste bubônica,</p>
<p style="text-align:center;">atingidos pelo Anônimo</p>
<p style="text-align:center;">como sombras apagadas</p>
<p style="text-align:center;">por um estilhaço, uma bomba.</p>
<p style="text-align:center;">É preciso dar, enfim,</p>
<p style="text-align:center;">à negação da realidade,</p>
<p style="text-align:center;">o belo nome de esperança.</p>
<p style="text-align:center;"> </p>
<p style="text-align:center;"><strong>♦</strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong> </strong></p>
<p style="text-align:center;"><strong>© Luiz Nazario, 2000.</strong></p>
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